Oscar 2027: Belo Horizonte mira a maior premiação do cinema
Belo Horizonte vive uma fase de grande destaque no audiovisual, sendo considerada um dos principais polos de produção de filmes independentes e autorais do Brasil. E o reconhecimento desse cenário pode levar a capital mineira para o Oscar 2027.
Duas produções mineiras estão na lista da Academia Brasileira de Cinema que podem disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Entre os 15 indicados, estão o filme Nosso Segredo, da atriz e diretora Grace Passô, vencedor do Festival de Cinema de Gramado e o longa Vicentina Pede Desculpas, do cineasta Gabriel Martins (Marte Um), um dos sócios-idealizadores da produtora Filmes de Plástico. Ambos foram filmados nas ruas de Belo Horizonte.
A lista reúne produções de diversos diretores do país que cumprem os critérios de elegibilidade estabelecidos pela premiação. As reuniões da Comissão de Seleção para definir o representante do Brasil acontecerão em duas etapas: nesta terça-feira (09) serão selecionados seis títulos entre os inscritos, na pré-lista. Já a reunião final acontece no dia 16 de Setembro, quarta-feira, para a escolha do título que representará o Brasil na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2027.
Para Maria Luiza Guidugli, Bacharel em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas e mestranda do PPGArtes da Escola de Belas Artes (EBA) da UFMG, com pesquisa focada nos cinemas de rua de Belo Horizonte, essa ascensão não é por acaso. A pesquisadora ressalta que Minas Gerais está presente de forma pioneira na produção cinematográfica desde o início do século passado, tendo Humberto Mauro e o ciclo de Cataguases nos anos 1920 como grandes referências históricas.

A escolha, no entanto, vai muito além do gosto pessoal dos jurados e exige cálculo estratégico. Formada por membros da própria Academia Brasileira de Cinema, entre cineastas, produtores, críticos e atores, a Comissão de Seleção costuma ponderar o equilíbrio entre o mérito artístico e a viabilidade competitiva no cenário internacional. Para os votantes, pesam fatores cruciais como a recepção da crítica estrangeira, a circulação prévia por grandes festivais ao redor do mundo e, sobretudo, o potencial de distribuição internacional e o fôlego financeiro para bancar uma cara campanha de divulgação voltada aos votantes da Academia em Los Angeles. É nessa balança entre força narrativa e músculo de mercado que as produções mineiras buscam se firmar como as candidatas ideais.
O chamado Ciclo de Cataguases marcou um período de intensa atividade criativa no interior mineiro durante a década de 1920, encabeçado pelo cienasta mineiro Humberto Mauro. Considerado até hoje o maior cineasta da história de Minas Gerais e um dos precursores absolutos do cinema nacional, Mauro ousou ao produzir obras de grande impacto técnico e narrativo fora do eixo Rio-São Paulo. Seus primeiros filmes desbravaram a sétima arte no Brasil e fincaram as raízes da forte identidade audiovisual que o estado carrega até os dias de hoje.
Guidugli também aponta a importância fundamental do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), criado em 1951, que ao longo das décadas fomentou debates profundos e formou diversas gerações de cineastas, produtores e roteiristas no estado. O CEC, que completou 75 anos de existência em setembro de 2026, mantém o título de cineclube mais antigo de Minas Gerais e um dos mais longevos do país. Mais do que um espaço para a exibição de filmes, o CEC nasceu com o propósito de formar pensadores e debater o cinema a fundo. A pesquisadora recorda que a instituição teve um papel tão decisivo na crítica especializada que possuía sua própria revista de cinema, com circulação nacional. Foi nesse ambiente de efervescência intelectual que uma geração inteira de jovens críticos mineiros deu o salto teórico e prático para a produção de seus próprios filmes.
Filmes


O filme Nosso segredo conta a história de uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Durante o luto, o filho mais novo guarda um segredo, que só assistindo o longa para descobrir. A obra ganhou o prêmio na 54ª edição do Festival de Gramado e venceu o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, além de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, no festival onde era o único título dirigido por uma mulher. É o primeiro filme da atriz e diretora Grace Passô.
Grace Passô é uma das grandes referências do teatro brasileiro contemporâneo, já tendo recebido dois prêmios de melhor atriz no Festival do Rio e outros dois no Festival de Brasília. Grace também foi a primeira dramaturga negra brasileira a receber o prêmio Shell, tendo dirigido várias peças teatrais.
A riqueza dos talentos mineiros que circulam hoje pelo mundo não se resume apenas a uma ou duas obras. Maria Luiza Guidugli reforça que a cena contemporânea do estado conta com profissionais de imenso prestígio, lembrando, além de Grace Passô, de grandes cineastas como a documentarista Petra Costa e o diretor Marcelo Caetano.


Gabriel Martins, nascido em Contagem, é o diretor responsável pelo filme Vicentina pede desculpas. O seu trabalho mais conhecido é o filme Marte um, da produtora Filmes de Plástico, na qual é sócio fundador. O longa cotado para o Oscar é protagonizado por Rejane Faria e terá sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá, em setembro. Depois, entrará para o catálogo da Netflix, produtora do filme em parceria com a Filmes de Plástico.
O filme se inicia contando sobre um acidente de um ônibus lotado que só um passageiro sobrevive. As câmeras de segurança do ônibus e da via registram o momento do acidente e, após a análise das imagens, começam a circular especulações de que o motorista poderia ter agido intencionalmente. Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos e mãe do motorista, é a grande protagonista da história e fica devastada pela tragédia e sem saber como seguir em frente. Ela decide procurar as famílias das vítimas e pedir desculpas.
Esse nível de produção escancara a capacidade técnica do estado. Avaliando a gravação de Vicentina Pede Desculpas, Maria Luiza destaca a logística altamente complexa da cena em que o ônibus cai de um viaduto, uma sequência de ação grandiosa e incomum nas filmagens de Belo Horizonte. “Quando a gente vê uma Netflix vindo filmar aqui em parceria com uma produtora daqui, e consegue fazer uma cena tão complexa quanto essa… fica claro que a gente tem potencial para fazer grandes produções”, pontua a especialista sobre o impacto dessa parceria na valorização do audiovisual mineiro.
Confira a lista completa dos possíveis filmes brasileiros indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional
- 100 Dias – Carlos Saldanha;
- A Conspiração Condor – André Sturm;
- A Fabulosa Máquina do Tempo – Eliza Capai;
- A Natureza das Coisas Invisíveis – Rafaela Camelo;
- Ato Noturno – Marcio Reolon e Filipe Matzembacher;
- Cinco Tipos de Medo – Bruno Bin;
- Dolores – Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes;
- Feito Pipa – Allan Deberton;
- Herança de Narcisa – Clarissa Appelt e Daniel Dias;
- Nosso Segredo – Grace Passô;
- O Rei da Internet – Fabrício Bittar;
- Quando Vira a Esquina – Chris Alcazar;
- Malês – Antonio Pitanga;
- Papagaios – Douglas Soares;
- Vicentina Pede Desculpas – Gabriel Martins.
Cenário em Belo Horizonte
O cenário audiovisual de Minas Gerais vem sendo impulsionado por políticas públicas de fomento e por uma sólida rede de difusão cultural. De acordo com os registros da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Minas Gerais ocupa hoje a terceira posição do país em número de empresas de cinema registradas, ficando atrás apenas do eixo São Paulo e Rio de Janeiro. Desse montante empresarial, metade está concentrada em Belo Horizonte, evidenciando a capital como o motor operacional e criativo do audiovisual mineiro. Maria Luiza Guidugli, acredita que a região só tem a evoluir nos próximos anos. “A gente tem muito talento e muita tradição aqui em Minas Gerais e eu acho que a gente tá conseguindo conquistar um espaço muito grande atualmente. E é daqui para cima, sabe?”
Para a cineasta, a inserção de Nosso Segredo e do longa Vicentina Pede Desculpas na pré -lista para o Oscar e a presença em vários festivais é um dos fatores que comprovam o potencial mineiro para a cena. “É o cinema mineiro sendo reconhecido pela sua qualidade, não só qualidade narrativa, mas qualidade de produção também”, avalia.
Esse crescimento do setor reflete uma política de manutenção de aportes financeiros estruturados. A prefeitura de Belo Horizonte e o governo do estado mantêm investimentos contínuos por meio de leis de incentivo à cultura e editais diretos. Apenas na edição de 2026, o programa BH nas Telas destinou R$ 2 milhões em recursos exclusivos para o setor audiovisual na capital. O segmento também foi impulsionado pelo repasse de R$ 378 milhões destinados a Minas Gerais por meio da Lei Paulo Gustavo, viabilizando o apoio técnico e financeiro a dezenas de produções, entre longas e curtas-metragens, todos os anos.

A difusão e a sustentabilidade do mercado encontram espaço garantido nos festivais de peso sediados na cidade. Eventos já consagrados no calendário nacional, como a Mostra de Cinema de Belo Horizonte (CineBH) e o Fórumdoc, extrapolam a simples exibição de filmes. Eles funcionam como plataformas que movimentam o mercado audiovisual, promovem debates essenciais sobre os rumos da produção nacional e desempenham um papel decisivo na formação de novos públicos e críticos.
A especialista vai além e destaca o caráter transformador que as mostras exercem. Maria Luiza argumenta que os festivais atuam fortemente na democratização do acesso à cultura, uma vez que o Brasil possui proporcionalmente poucas salas de cinema para o tamanho de sua população, e muitos desses eventos oferecem entradas gratuitas ou altamente acessíveis. Ela complementa que os festivais se tornaram “espaços riquíssimos para a formação de público e de profissionais”, graças às oficinas, aulas e imersões voltadas para estudantes e apaixonados pelo cinema que desejam atuar no meio.
Cinemas de Rua
No dia a dia, os cinemas de rua lutam para levar produções brasileiras ao público. Cinemas como Belas Artes, Cine Santa Tereza, Cinema Minas Tênis Clube e o Cine Graciano sustentam a distribuição de filmes nacionais em Belo Horizonte. Mas, entre os desafios, a sustentação financeira ainda é um impasse.
Criado pela Associação Filme de Rua, o Cine Graciano correu o risco de fechar, menos de um ano após sua inauguração. Em agosto deste ano, uma campanha de financiamento coletivo foi criada para garantir que o cinema permanecesse funcionando na Lagoinha, região Noroeste de Belo Horizonte. Para Maria Luiza, o Cine Graciano, junto a tantos outros cinemas de rua, é essencial para manter essa cultura viva. “O Cine Graciano exibe filmes feitos aqui em Minas e mostrando a realidade de Minas, mostrando uma realidade urbana, uma realidade das ruas. Sua preservação é fundamental pra gente conseguir fortalecer essa essa distribuição do cinema mineiro”.




A defesa dos espaços físicos independentes esbarra também em um mercado de exibição muitas vezes hostil. A mestranda critica duramente as empresas multiplex e de shoppings, ressaltando que muitas delas desrespeitam as cotas de tela exigidas por lei e não garantem espaço adequado para os filmes nacionais. “O cinema brasileiro tem pouco espaço nos cinemas de shopping”, enfatiza Guidugli, explicando que os cinemas de rua são hoje a principal força de resistência em meio a um mar de grandes blockbusters internacionais e ao avanço frenético dos streamings. É nos cinemas de rua que acontecem as pré-estreias e as valiosas sessões comentadas em que o espectador pode debater o processo de produção diretamente com os pesquisadores e a equipe dos filmes. Como alternativa complementar, ela enaltece iniciativas online como a plataforma gratuita “Tela Brasil”, classificando-a como uma ferramenta incrível de difusão de catálogos clássicos e contemporâneos que permite a democratização do acesso para moradores de cidades do interior que não contam com salas de cinema.
Visibilidade com o Oscar
O debate sobre a relevância das premiações internacionais para o audiovisual nacional ganha novos contornos sob a ótica acadêmica. Para o professor do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas, Marco Túlio Ulhôa, a estatueta do Oscar não deve ser termômetro para a qualidade das produções locais.
Segundo o especialista, o cinema brasileiro possui uma força própria e não precisa da validação de uma premiação estadunidense para ser considerado grandioso. “A gente (brasileiros) acaba dando muita importância para o Oscar. Uma importância que talvez no contexto da Europa não se tenha tanto, porque na Europa você tem outros festivais muito relevantes, como o Festival de Cannes, o Festival de Veneza, que são tão antigos e tradicionais quanto”
No Brasil, a supervalorização de prêmios externos esbarra em questões culturais profundas. Marco Túlio identifica a existência de um “complexo de viralatismo brasileiro” em relação à cultura dos Estados Unidos. “A gente vive à mercê dessa expectativa de receber o Oscar, como se isso fosse a coisa mais importante da história do cinema brasileiro”, pontua o professor.
Apesar das críticas históricas sobre a supervalorização das premiações norte-americanas, a busca por esse espaço internacional também funciona como uma vitrine e uma celebração do trabalho das produtoras do estado. Maria Luiza Guidugli relembra que a própria produtora de Vicentina Pede Desculpas já desbravou esse caminho recentemente, mobilizando o setor. “É legal lembrar que a Filmes de Plástico já foi escolhida para representar o Brasil no Oscar em 2022 com Marte Um. E eu lembro que foi lindo ver a campanha do pessoal para conseguir levar o filme para o Oscar”, recorda a pesquisadora. Sob essa ótica, ela avalia que a presença constante dessas obras em disputas e eventos internacionais consolida o trabalho feito em Minas Gerais. “Eu vejo esses filmes nessa lista, e não só nessa lista, mas rodando o mundo, como o cinema mineiro sendo reconhecido pela sua qualidade, não só narrativa, mas de produção também”, conclui.
Matéria produzida por Danielly Camargos e Mariana Brandão sob a supervisão do professor Getúlio Neuremberg
