Mais doadores e menos prazos
O que muda com a nova portaria de doação de sangue em BH, que entra em vigor dia 30 de setembro
Beatriz Torres, Hannah Andrade e Letícia Nogueira
Doar sangue sempre esteve ligado à vontade de ajudar outras pessoas. Esta é a opinião de Elizângela de Brito. doadora frequente em Belo Horizonte. Ela conta que, durante um período, chegou a interromper a ação por uma razão que, à primeira vista, poderia parecer pequena: o tamanho da agulha utilizada no procedimento.
Mas a experiência mostra que os desafios da doação nem sempre estão relacionados à falta de vontade. Medo, desinformação, prazos e até a distância dos postos podem influenciar a decisão de quem pretende doar.
Hoje, Elizângela diz que a experiência mudou e que praticamente não sentiu a aplicação da agulha. “Ah, tem uma coisa que me impedia de doar sangue, que foi um tempo que eu fiquei sem doar, foi devido realmente ao tamanho da agulha. É uma coisa… parece uma coisa banal, mas não é. E agora eles mudaram muito. Agora, na hora em que a moça realmente foi tirar o sangue, foi colocar a agulha, eu nem senti. E há uns anos atrás era imensa, enorme, grossa de espessura, enorme de tamanho.”
Novas regras ampliam critérios para doação
Além de ser apta para doação, entre os desafios para uma pessoa que deseja contribuir como doadora, estão chegar ao posto de coleta e manter a prática com regularidade. É nesse contexto que entra a Portaria GM/MS nº 11.685/2026. Publicada no Diário Oficial da União em 3 de julho, o novo regulamento da hemoterapia revisa critérios de aptidão e estabelece mudanças relacionadas a doenças, procedimentos e medicamentos.
A norma entra em vigor no dia 30 de setembro de 2026, 90 dias após a publicação. Entre as alterações, estão a redução do prazo para quem passou por endoscopia e para quem utilizou anabolizantes sem prescrição médica, que passa de seis para quatro meses.
Para aqueles que fizeram tatuagens, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos invasivos, como aplicação de botox, preenchimentos e microagulhamento, a doação poderá ocorrer sete dias após o procedimento, desde que tenham sido cumpridas as condições de segurança previstas na regulamentação. Quando não for possível avaliar a segurança do procedimento, o prazo passa a ser de quatro meses. Para piercings realizados na cavidade oral ou na região genital, o período é de quatro meses após a retirada.
Outra mudança amplia a possibilidade de continuidade da doação entre pessoas que já são doadoras regulares: deixa de existir uma idade máxima para quem já possui histórico de doação, desde que a pessoa permaneça saudável, seja considerada apta na avaliação clínica e respeite os critérios estabelecidos para sua faixa etária.
Além dos prazos, a nova regulamentação também atualiza o conjunto de critérios utilizados pelos serviços de hemoterapia para determinar quem pode doar. Confira as informações completas:

Critérios mais flexíveis, segurança mantida
A redução dos períodos de espera pode gerar uma dúvida natural: se algumas pessoas poderão voltar a doar mais cedo, o sangue continua seguro?
Segundo Thiago Sindeaux, analista da Assessoria de Captação de Doadores da Fundação Hemominas, a flexibilização dos critérios não representa uma redução nos mecanismos de segurança.
“A redução de alguns prazos não significa, de forma alguma, a redução da segurança. O que mudou foram alguns critérios de elegibilidade, e são critérios que vão ser ajustados com base no conhecimento técnico e científico atual (…) Tanto pensando no atendimento do doador quanto no atendimento ao paciente que vai receber uma transfusão, na medida de cada doação, os candidatos vão continuar passando por todas as etapas, incluindo a triagem clínica, em que são avaliadas condições clínicas de saúde do doador, e, após a coleta, é importante salientar que as bolsas doadas também continuam passando por rigorosos exames laboratoriais, e somente são liberadas quando atendidos todos os critérios de segurança.”
Thiago reforça que a Hemominas, responsável por 90% da coleta de bolsas de sangue do estado, continua seguindo todos os protocolos vigentes e boas práticas de segurança no processo de doação em todas as suas unidades, para garantir essa confiança tanto de quem doa quanto de quem recebe.
A tecnologia também entra na nova regulamentação
Entre as novidades está a ampliação do NAT Plus, teste desenvolvido por Bio-Manguinhos/Fiocruz que já identifica HIV e os vírus das hepatites B e C e passa também a detectar o parasita causador da malária. Com a inclusão desse procedimento na triagem obrigatória, o Ministério da Saúde informa que o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a adotar o teste dessa forma em 100% da triagem.
Outra mudança é a adoção do padrão internacional ISBT 128 para a identificação de bolsas e amostras. A medida reforça a rastreabilidade do sangue ao longo das diferentes etapas, da coleta à transfusão ou ao encaminhamento do plasma para a produção de medicamentos.
A regulamentação também permite que o concentrado de plaquetas tenha validade de até sete dias, quando cumpridas as medidas de controle de qualidade exigidas. A ampliação pode contribuir para reduzir perdas e aumentar a disponibilidade desse hemocomponente, utilizado, entre outros casos, por pacientes oncológicos, pessoas submetidas à quimioterapia e pacientes com doenças hematológicas.
Depois de coletado, o sangue não é necessariamente utilizado como uma única unidade. Na Hemominas, o sangue passa pelo processo de fracionamento, que permite a obtenção de diferentes hemocomponentes: hemácias, plaquetas, plasma e crioprecipitado. Segundo Thiago Sindeaux, essa divisão permite que uma única doação contribua para o atendimento de diferentes pacientes, de acordo com as necessidades transfusionais.
“As unidades da Fundação Hemominas atuam em rede, com estoque global estratégico que é utilizado a partir da solicitação dos hospitais contratantes para o atendimento à necessidade transfusional dos pacientes, independentemente da cidade em que ele esteja sendo atendido. Então é muito importante a gente salientar que uma única doação pode beneficiar mais de uma pessoa, porque o sangue é fracionado em diferentes hemocomponentes (…), fundamentais para os pacientes que precisam de transfusão, tanto por uma situação momentânea, como no caso dos acidentes, situações de urgência e emergência, um transplante, que é algo mais pontual, mas também incluindo (…) pacientes oncológicos, pessoas com doenças crônicas e que necessitam de transfusões frequentes.”

Por outro lado, ampliar o número de pessoas aptas a doar não significa necessariamente aumentar os estoques. Para a Hemominas, o desafio começa depois da mudança da regra: transformar a possibilidade de doar em um hábito regular.
Os desafios do abastecimento e a lógica da regularidade
Garantir que os bancos de sangue se mantenham em níveis seguros é uma equação complexa e um antigo desafio para a saúde pública. O sistema de abastecimento dos bancos de sangue depende do fluxo constante de voluntários. De acordo com Thiago, o comparecimento aos hemocentros é impactado por oscilações previsíveis ao longo do ano, principalmente em épocas de férias escolares, feriados prolongados e dias mais frios. Segundo ele, as novas regras vão além do estímulo de aumentar a quantidade de doadores, mas focam no objetivo de estimular a população a doar com mais frequência.
Outro ponto que costuma passar despercebido pelo público é o caminho percorrido pela bolsa após a coleta. O sangue doado em um município não fica necessariamente retido na cidade de origem. A Fundação Hemominas funciona por meio de uma rede integrada de cobertura estadual, responsável por mais de 90% da demanda hemoterápica de Minas Gerais. Cada doação passa por um processo de fracionamento e um mapeamento profundo para detectar qualquer anomalia que impeça aquele sangue de ser utilizado. Uma coleta abastece um estoque global, remanejado continuamente de acordo com a urgência dos hospitais conveniados em qualquer canto do mapa mineiro.
Entre a teoria e a prática
A recente atualização normativa traz uma expectativa positiva para a rede. Porém, a ampliação do rol de pessoas elegíveis não garante, por si só, que essas pessoas de fato cheguem aos postos. A distância entre a regra técnica e a decisão de doar revela que fatores como a falta de clareza nas campanhas e as percepções individuais de tempo pesam na rotina.
O relato de Elizângela retrata bem esse cenário. Ao descobrir que os critérios oficiais autorizam mulheres a doar a cada 90 dias (enquanto para homens o intervalo é de 60 dias), ela reforçou a preferência por um ritmo próprio: “Dois meses? Não, então não vai ser de dois em dois meses não, vou continuar de seis em seis meses”, pontuou, destacando ainda que as informações sobre critérios e prazos poderiam ser comunicadas de forma mais didática e acessível.
No fim das contas, a prioridade dos hemocentros não é exigir que o cidadão atinja o teto máximo de doações no ano, mas sim construir o hábito de comparecer com constância. O porta-voz da instituição ressalta a importância das doações recorrentes.
“A Hemominas responde por mais de 90% da cobertura hemoterápica do estado mineiro. Por isso, a gente precisa muito de novos doadores para manter os estoques sempre em níveis adequados de todos os grupos sanguíneos e, assim, atender as demandas transfusional“, destaca Thiago.
Para doar é preciso:
- Estar em boas condições de saúde;
- Pesar pelo menos 50 kg;
- Estar descansado;
- Estar alimentado e hidratado;
- Apresentar documento oficial com foto;
- Ter entre 16 e 69 anos para novos candidatos, conforme as regras aplicáveis;
- Doadores regulares acima dos 70 podem continuar, desde que aptos.
O agendamento deve ser feito no site da Hemominas ou no aplicativo MG Cidadão. Para mais informações, entre em contato pelo telefone (31) 3768-4500 ou pelo e-mail contato@hemominas.mg.gov.br.
