Entre a Rua e a Casa: manifestações culturais no Centro de BH
Como a hospitalidade e a cultura transformaram um casarão centenário em porto seguro para minorias sociais
Millena Alves e Pedro Almeida
A região central de Belo Horizonte sempre foi palco para diversas manifestações culturais e artísticas da cidade. Desde o morador de periferia até o condômino da zona sul, o espaço consegue reunir em toda a sua extensão uma diversidade inegável de crenças, classes, pensamentos e comunidades.

Legenda: Rua Sapucaí Fotos: Pedro Almeida
Como principais pilares dessa união de diferentes realidades, três lugares específicos se destacam: o Parque Municipal, o Viaduto Santa Tereza e a famosa Rua Sapucaí, que foi fechada em 2023, em razão do projeto Centro de Todo Mundo, que visou revitalizar o centro da cidade e criar novos espaços de convivência e lazer. A via conta com seu patrimônio tombado mais conhecido, a Casa Sapucaí.
Conhecida por todos aqueles que frequentam a vida boêmia e noturna de BH, a Casa, que possui mais de 100 anos de história, já foi empresa, edifício de escritórios, lar de uma miss, e até uma escola. Ela se tornou ao longo dos anos um porto, um local seguro para todas as culturas e comunidades minoritárias na capital, tornando-se, assim, uma referência para diversos públicos.
O estudante Lucas Wagner, frequentador assíduo da rua Sapucaí, bem como dos eventos da casa, nos contou um pouco sobre sua experiência com os movimentos e manifestações culturais no Centro, bem como a importância do casarão histórico para a cultura de Belo Horizonte.
“E eu gosto muito como BH apresenta tantas possibilidades de cultura, mas, sinto que falta mais apoio a artistas independentes e à cena local, Vejo que o movimento cultural local deveria receber mais oportunidades e incentivos da iniciativa pública e privada.“

O estudante Lucas Wagner de Carvalho Lima, 27 anos, na Rua Sapucaí.
“A Casa Sapucaí representa uma proposta ousada: uma casa histórica que possui um layout dividido, além da casa realizar a valorização de talentos locais como DJs, um espaço que proporciona interação, entretenimento e é um movimento de cultura acessível para quem produz e quem é cliente.”
As festas acontecem a semana toda e sua programação engloba gêneros variados:

Atrações que acontecem durante a semana na programação da Casa Sapucaí. (Arte feita no Canva: Pedro Almeida)
Além da fama de ser um lugar inclusivo, uma característica que marca o espaço, é o foco no tratamento das pessoas e a capacidade de lidar com os problemas e crises geradas, com cuidado. Lucas Augusto, 42 anos, um dos sócios da Casa, comenta:
“ O ponto forte aqui na casa é a hospitalidade. Eu prezo muito por receber bem as pessoas, deixá-las à vontade. Temos aqui uma afinidade ao público LGBTQIAPN+, de pessoas negras, mulheres, indígenas, e outras minorias sociais’’.
Por já ter experiência trabalhando com restaurantes e eventos, Lucas aprendeu desde cedo que a hospitalidade é a chave para um sucesso garantido em qualquer negócio. Para ele, dar aos frequentadores da casa essa sensação de conforto é essencial. É essa sensação que torna a rua Sapucaí o que ela é hoje: um lugar de conforto, acolhimento e liberdade para todos os gostos, jeitos e particularidades.
Para que isso aconteça, o estabelecimento mantém uma política de segurança rigorosa, protegendo os frequentadores de qualquer violência ou discriminação para garantir o bem-estar de todos. Segundo ele, há uma “inversão de valores” no local: pessoas que não têm privilégios na cidade, não possuem alto poder aquisitivo ou são marginalizadas pela sociedade são as mais ouvidas e valorizadas, justamente por serem as mais vulneráveis.
“Qualquer menina que reclamar de um cara, a gente vai sugerir que ele vá embora. Quem vier aqui e não respeitar a cultura da casa não é bem-vindo.”
Lucas Augusto destaca ainda que a equipe de segurança é formada exclusivamente por mulheres, com o objetivo de assegurar esse cuidado e acolhimento. A estratégia tem funcionado: Lucas relata ter presenciado cerca de apenas dez brigas em toda a trajetória do espaço.
“Muito pouco, pela história dela. É um ambiente tranquilo para curtir e ser autêntico.”
A icônica Casa Sapucaí se viu em um impasse contratual e quase deixou a Rua, preocupando os amantes do local, já que é um ponto cultural forte. Felizmente, após uma difícil negociação, a casa pôde se estabelecer.
“A gente tem o privilégio de estar aqui, colocando a cara para a cidade inteira. Então, para a gente sempre foi interessante ficar, e a gente conseguiu.”
Com a permanência, os planos para o futuro da Casa são grandes: Lucas pretende não só ter participação ativa nos grandes eventos culturais do Centro, como por exemplo, no carnaval, mas também atraí-los para a rua Sapucaí.
‘’Não quero que ela seja um lugar que é só bar, mas não tem uma música, não tem um evento. Me coloquei à disposição da Belotur, e estou tendo mais diálogo com a Prefeitura para contribuir’’.
Além disso, também há a meta de transformar a Casa em um centro profissionalizante, com aulas de dança, audiovisual, e para DJ ‘s.
‘‘Aí sim vira um legado, a Casa deixa de ser somente noturna e passa a ser um ponto de convergência de cultura”.
A permanência da Casa Sapucaí representa mais do que a preservação de um espaço físico, mas também o fortalecimento do Centro de Belo Horizonte como um pólo de resistência cultural, inclusão e convivência democrática. Ao unir a efervescência da vida noturna à ambição de se tornar um centro de formação artística, a Casa reafirma seu papel fundamental na transformação da capital mineira. No encontro de diferentes públicos e histórias, a Sapucaí se consolida como o coração pulsante de uma cidade que está aprendendo a ocupar, acolher e valorizar a própria diversidade.
