Conexão 13

Edição Jornalística – PUC Minas

CidadeEducaçãoEsporte

Entre a bola e o futuro: projeto usa o futebol para transformar vidas no Minas Caixa

Projeto Semeando Vidas atende 202 crianças e utiliza esporte, educação e atendimento psicológico para
auxiliar famílias em situação de vulnerabilidade social

Por Guilherme Sales e Luccas Almeida

O Projeto Semeando Vidas atende atualmente 202 crianças cadastradas e alcança, em média, mais
de 750 pessoas quando considerados os familiares. Localizada no bairro Minas Caixa, em Belo
Horizonte, a iniciativa oferece atividades esportivas, educacionais e de atendimento psicológico. Entre
elas está o futebol, utilizado como uma das ferramentas de convivência e desenvolvimento dos
participantes.

Segundo Wellington Luiz dos Santos, fundador, diretor e instrutor do projeto, cerca de 90% das
famílias atendidas vivem em situação de vulnerabilidade social. As crianças chegam à instituição com
diferentes necessidades, incluindo dificuldades educacionais e questões relacionadas à saúde emocional.
Criado há 22 anos, o Semeando Vidas começou na garagem da casa dos pais de Wellington. A
iniciativa surgiu a partir da preocupação da família com o irmão dele, que passava muito tempo nas ruas
acompanhado de outros jovens.

Na época, segundo Wellington, o bairro Minas Caixa apresentava características diferentes das
atuais. A região era predominantemente ocupada por militares, entre eles seu pai, que está
aposentado. Com o crescimento da comunidade no entorno, a família passou a observar também o
aumento de situações de violência.

“Quando cresce também o volume de pessoas, cresce também o volume de violência”, diz Wellington.

A proposta inicial era reunir as crianças dentro de casa e oferecer atividades educativas. Com o
passar dos anos, o projeto cresceu e passou a funcionar em uma estrutura com mais de dez cômodos,
incluindo cinco salas, recepção, espaço para atendimento psicológico e laboratório de informática.
Atualmente, além do futebol e de outras atividades esportivas, são oferecidas oficinas de
informática e inglês.

O projeto também mantém atendimento psicológico e uma turma de desenvolvimento de inteligência artificial, segundo Wellington.

Esporte como ferramenta de desenvolvimento

O futebol está inserido nesse conjunto de atividades. Para o fundador, o esporte é uma das formas de aproximar as crianças do projeto e contribuir para o desenvolvimento delas.

A iniciativa não tem como foco apenas a formação esportiva. A proposta é oferecer diferentes
atividades de acordo com as necessidades apresentadas pelos participantes. Entre os serviços está o atendimento psicológico.

Wellington afirma que algumas crianças e adolescentes chegam ao projeto enfrentando situações de sofrimento emocional. Segundo ele, já houve casos de adolescentes que chegaram ao local com pensamentos suicidas e que receberam
acompanhamento psicológico.

Adolescente participante do Semeando Vidas treinando durante atividade do projeto | Foto: Acervo do Projeto
Adolescente participante do Semeando Vidas treinando durante atividade do projeto | Foto: Acervo do Projeto

O projeto também oferece alimentação aos participantes. De acordo com Wellington, somente no
primeiro semestre, foram distribuídos mais de 4,2 mil lanches. O fundador estima que o custo tenha
ultrapassado R$ 33 mil no período.

Para Elizabeth Goulart, assistente social e uma das voluntárias da iniciativa, o acompanhamento
das crianças e das famílias permite observar mudanças que vão além da participação nas atividades.
“O projeto é muito lindo. Eu amo o Semeando Vidas e não me vejo longe dele”, afirma.

Segundo Elizabeth, o que a mantém ligada à iniciativa é justamente acompanhar histórias de
crianças e familiares que chegam em situações de vulnerabilidade e, posteriormente, encontram
possibilidades de crescimento pessoal e profissional.

Histórias construídas ao longo dos anos

Crianças e adolescentes do projeto Semeando Vidas após atividade | Foto: Acervo do Projeto
Crianças e adolescentes do projeto Semeando Vidas após atividade | Foto: Acervo do Projeto

O trabalho desenvolvido pelo projeto também tem resultados observados em participantes que permaneceram ligados à instituição ao longo dos anos.

Wellington cita como exemplo Isabela, que chegou ao Semeando Vidas aos seis anos. Atualmente,
ela é formada em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possui pós-graduação em Administração Pública e integra a direção do projeto.

Para Wellington, a trajetória representa o resultado de um trabalho construído ao longo dos anos.
“Então, o nosso projeto é uma semente”, afirma.

A estrutura também utiliza nomes relacionados ao processo de crescimento das plantas. As salas
são chamadas de Cultivo, Broto, Semente e Raiz. Segundo Wellington, os nomes representam etapas do
desenvolvimento das crianças dentro do projeto.

Trabalho voluntário e manutenção

Wellington afirma que 99% das pessoas que atuam no projeto trabalham de forma voluntária. Professores, tutores e outros colaboradores participam das ações sem serem contratados pela instituição.

A manutenção financeira é outro desafio. Segundo o fundador, o projeto não recebe apoio de
órgãos públicos e depende de doações e patrocinadores mensais.

Os valores destinados pelos apoiadores variam de R$ 30 a R$ 200 por mês. O projeto também
produz e comercializa sabonetes da própria marca, com os nomes Florescer, Esperança e Raiz, como
forma de arrecadar recursos.

O dinheiro é utilizado para despesas como aluguel, água, energia, limpeza e alimentação das
crianças.

Projeto passou por interrupções

A história do Semeando Vidas também é marcada por períodos de interrupção. Em 2015,
Wellington perdeu a irmã Taís, uma das fundadoras do projeto, que morreu durante o parto do filho.
Cinco anos depois, em 2020, ele perdeu a esposa, Raquel, durante a pandemia de Covid-19.

Segundo Wellington, as perdas fizeram com que as atividades fossem interrompidas
temporariamente. A retomada ocorreu em 2022.

Desde então, o projeto voltou a ampliar as atividades e o número de pessoas atendidas.
Atualmente, a estrutura conta com mais de nove oficinas e mantém ações voltadas ao esporte, educação e
acompanhamento das crianças.

Para Wellington, a continuidade do projeto está relacionada à possibilidade de interferir na
trajetória das crianças e da comunidade onde a iniciativa está inserida.

No Semeando Vidas, o futebol é uma das atividades que fazem parte dessa proposta. A prática
esportiva divide espaço com outras ações que buscam atender diferentes necessidades das crianças e
adolescentes.

O objetivo, segundo os responsáveis pelo projeto, é utilizar essas oportunidades para
contribuir com o desenvolvimento dos participantes e ampliar as possibilidades para além da situação de
vulnerabilidade em que muitas famílias chegam à instituição.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *