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Edição Jornalística – PUC Minas

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Racismo ambiental revela uma Belo Horizonte dividida pela cor, pela renda e pelo território

Enquanto áreas valorizadas concentram infraestrutura, arborização e proteção, moradores de vilas, favelas e ocupações enfrentam maior exposição a enchentes, deslizamentos, calor e insegurança habitacional

Arthur Tadeu, Rafael Fiorini e Henrique Marcelino

Belo Horizonte foi planejada, no fim do século XIX, para representar a modernidade. Mais de um século depois, porém, a organização do espaço urbano ainda expõe uma divisão profunda: de um lado, bairros bem atendidos por infraestrutura, arborização e serviços públicos; de outro, comunidades marcadas pela precariedade do saneamento, pelo risco de deslizamentos, pela ameaça de remoção e pela falta de acesso igualitário aos benefícios ambientais. Quando essa desigualdade atinge de maneira desproporcional populações negras, pobres e historicamente marginalizadas, o problema recebe um nome: racismo ambiental. 

O conceito não se restringe a atitudes explicitamente racistas nem depende da intenção declarada de prejudicar determinado grupo. Também se manifesta por meio de políticas públicas, decisões urbanísticas e omissões institucionais que distribuem de forma desigual os riscos e os benefícios ambientais. Na prática, significa observar quem vive próximo a cursos d’água sujeitos a transbordamentos, quem ocupa encostas instáveis, quem convive com esgoto, poluição e calor extremo e quem possui recursos para morar em regiões mais protegidas. 

Uma cidade planejada para poucos 

A desigualdade territorial de Belo Horizonte não surgiu agora. Durante a implantação da nova capital mineira, moradores do antigo Curral del-Rei foram retirados para abrir espaço ao projeto urbano planejado. Comunidades negras, trabalhadores pobres e grupos tradicionais passaram a ocupar áreas externas à zona central, em um processo que ajudou a estabelecer a oposição entre uma cidade formal, atendida pelo poder público, e outra periférica, construída com menos infraestrutura e reconhecimento institucional.  

Essa lógica permanece visível na configuração atual da capital. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, o município possui 336 assentamentos de interesse social, nos quais vivem aproximadamente 480 mil pessoas, cerca de 20% da população da cidade. Os dados incluem aproximadamente 120 mil domicílios em vilas, favelas e conjuntos irregulares, além de outros 34 mil em áreas de interesse social. A dimensão desses números mostra que a precariedade habitacional não representa uma situação isolada, mas parte estrutural da realidade urbana de BH. 

Embora nem todo morador de uma área vulnerável seja negro e nem toda pessoa negra esteja em situação de risco, a formação social brasileira faz com que raça, renda e território frequentemente se cruzem. A exclusão da população negra após o período escravista, sem políticas abrangentes de reparação, moradia e integração econômica, contribuiu para a ocupação de regiões menos valorizadas e com menor presença do Estado. Por isso, especialistas destacam que a concentração de pessoas negras em espaços sujeitos à degradação ambiental não deve ser tratada como uma coincidência.  

A chuva não atinge todos da mesma forma 

Em Belo Horizonte, as chuvas intensas tornam essa desigualdade especialmente visível. Enchentes e deslizamentos podem afetar qualquer região, mas suas consequências são mais graves para quem vive em imóveis frágeis, encostas, margens de córregos e localidades com drenagem insuficiente. Nessas áreas, uma tempestade pode significar a perda de móveis, documentos, renda e até da própria moradia. Famílias com menor poder econômico também encontram mais dificuldades para reconstruir suas casas ou mudar para um lugar seguro. 

A cidade convive com os efeitos de um modelo de urbanização que canalizou córregos, impermeabilizou o solo e construiu avenidas sobre cursos d’água. Pesquisadores apontam que esse sistema aumenta a velocidade do escoamento e contribui para inundações durante chuvas intensas. Ao mesmo tempo, estudos sobre áreas verdes indicam concentração da vegetação em regiões valorizadas e escassez nas periferias, justamente onde a arborização poderia reduzir o calor, ampliar a infiltração da água e melhorar a qualidade do ar.  

As obras de drenagem realizadas pelo município demonstram que intervenções públicas podem reduzir riscos. No período chuvoso de 2023/2024, por exemplo, as bacias de detenção B5, Olaria/Jatobá e Ferrugem ajudaram a evitar alagamentos de grandes proporções na Avenida Teresa Cristina. A estrutura B5 foi projetada para armazenar 274 milhões de litros de água, enquanto outros reservatórios e caixas de captação foram implantados em pontos historicamente vulneráveis. Essas ações são importantes, mas o enfrentamento do racismo ambiental exige que os investimentos sejam planejados de acordo com a vulnerabilidade social dos territórios, e não apenas com o impacto sobre o trânsito ou sobre áreas economicamente valorizadas. 

Soluções baseadas na natureza também podem contribuir. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais analisou a utilização de jardins de chuva e outras estruturas capazes de aumentar a infiltração da água no solo. A Prefeitura implantou 60 jardins de chuva no entorno da bacia do Córrego do Nado, nas regiões Norte e Pampulha. Além de colaborar com a drenagem, esse tipo de intervenção pode reduzir as ilhas de calor, melhorar o ar e ampliar a biodiversidade urbana. Ativista do Morro do Papagaio, Júlio Fessô chama atenção para os impactos do calor e das chuvas nas comunidades. Segundo ele, as vilas e favelas enfrentam temperaturas ainda mais altas por estarem cercadas por grandes estruturas que concentram o calor no asfalto.

As chuvas, por sua vez, nem sempre representam alívio. Júlio explica que muitas casas não têm reboco, as lajes não possuem revestimento adequado e os telhados apresentam problemas de infiltração. “O barraco acaba virando uma esponja”, afirma. Segundo o ativista, quando a água da chuva não provoca inundações, ela contribui para o aumento do mofo e, consequentemente, para problemas respiratórios entre os moradores.

Para Júlio, também existe uma diferença no tratamento dado pelo poder público às áreas formais da cidade e às favelas. “Quando é no asfalto, se faz uma contenção de encosta, um jardim de chuva”, critica. “Quando é na favela, simplesmente põe cimento. A favela tem que ser pensada de acordo com a cidade formal.”

A avaliação do ativista é que as políticas públicas precisam considerar as especificidades das comunidades e integrá-las ao planejamento urbano da cidade, em vez de tratá-las de forma isolada ou com soluções improvisadas. Raquel, moradora do Morro do Papagaio, que passava pela rua próxima a um jardim comunitário, conta que criou o espaço junto com a amiga Giselma como uma forma de mobilização diante dos impactos climáticos na comunidade. O jardim reúne plantas e frutas e também conta com a participação das crianças.

Para Raquel, pequenas iniciativas podem gerar mudanças coletivas. “É um trabalho de formiguinha, né? Se cada um fizer um pouquinho, se cada um alcançar uma pessoa… imagina!”, comenta.

Quando a proteção ambiental ameaça a moradia 

Imagem de Satélite da Região Centro-Sul de Belo Horizonte
Imagem de Satélite da Região Centro-Sul de Belo Horizonte –
Imagens ©2026 Airbus, CNES/ Airbus, Maxar Techniologies, Dados do mapa ©2026
Imagem de Satélite da Região Oeste de Belo Horizonte
Imagem de Satélite da Região Oeste de Belo Horizonte –
Imagens ©2026 Airbus, CNES/ Airbus, Maxar Techniologies, Dados do mapa ©2026

O racismo ambiental também aparece quando projetos apresentados como ambientalmente positivos desconsideram a permanência e a participação das comunidades existentes. Em 2025, moradores da Ocupação Vila Maria, no bairro Betânia, denunciaram que a proposta de ampliação do Parque Jacques Cousteau poderia abrir caminho para a retirada de aproximadamente 120 famílias, formadas majoritariamente por pessoas negras, indígenas e imigrantes venezuelanas. O município sustentou que a alteração dos limites daria segurança jurídica ao parque e permitiria a instalação de um equipamento de saúde mental, enquanto os moradores cobraram consulta pública e um estudo socioambiental independente. 

O episódio evidencia uma contradição recorrente nas cidades: a preservação ambiental é indispensável, mas não pode ser usada para eliminar direitos sociais ou transferir populações vulneráveis sem participação, indenização adequada e alternativas dignas. Quando parques, áreas verdes e projetos de revitalização valorizam determinada região, mas expulsam moradores pobres, ocorre o fenômeno conhecido como gentrificação verde. Nesse processo, o benefício ambiental permanece no território, mas deixa de atender justamente as pessoas que viviam ali antes de sua valorização. 

Além das obras, participação popular 

Combater o racismo ambiental requer mais do que obras emergenciais. É necessário integrar políticas de habitação, saneamento, mobilidade, saúde, defesa civil e adaptação climática. Isso inclui produzir dados territoriais desagregados por raça e renda, identificar quais grupos estão mais expostos a riscos, priorizar investimentos nas áreas mais vulneráveis e garantir que moradores participem das decisões sobre intervenções em seus territórios. Estudos sobre o tema apontam que a degradação ambiental também compromete a saúde coletiva e amplia desigualdades no acesso a direitos fundamentais.  

A participação popular é um elemento central dessa mudança. Audiências realizadas apenas depois de projetos estarem praticamente definidos não garantem participação efetiva. As comunidades precisam ser envolvidas desde a identificação dos problemas até a elaboração, execução e fiscalização das soluções. É nos territórios que os moradores conhecem os pontos de alagamento, as áreas sem drenagem, as encostas instáveis e as dificuldades para acessar serviços públicos. 

Falar de racismo ambiental em Belo Horizonte, portanto, não significa afirmar que somente pessoas negras sofrem com enchentes, deslizamentos ou falta de saneamento. Significa reconhecer que a história da cidade e as desigualdades raciais e econômicas influenciam quem está mais exposto, quem recebe proteção primeiro e quem tem maior poder para participar das decisões. A chuva pode cair sobre toda a capital, mas a capacidade de se proteger, permanecer no território e reconstruir a vida continua distribuída de forma desigual. 

Superar esse cenário exige uma política ambiental que não enxergue apenas rios, árvores e encostas, mas também as pessoas que vivem ao redor deles. Em uma cidade verdadeiramente sustentável, preservar o meio ambiente e garantir moradia digna não são objetivos opostos. São partes do mesmo compromisso com o direito à cidade, à justiça social e à igualdade racial. 

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