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Edição Jornalística – PUC Minas

Cultura

É de todo mundo, é para todo mundo

Marcella Gasparete e Paula Nardy – 7° período

Um dos atuais destinos mais procurados pelos brasileiros para passar o Carnaval, a folia em Belo Horizonte nem sempre foi vista com bons olhos pela Prefeitura e moradores. Nos anos 2000, as políticas públicas na cidade cercavam o pleno uso dos espaços públicos pela população, proibindo-os ou regulamentando-os de forma excludente. A partir disso, o movimento carnavalesco surgiu de uma forma espontânea, mas alinhado com intenções políticas.

Em 2009, tantas regras levaram a um descontentamento coletivo e, no dia 9 de dezembro daquele ano, o então prefeito Márcio Lacerda publicou um decreto que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, uma das praças mais emblemáticas da cidade.

Como resposta, em janeiro de 2010, surgiu a primeira “Praia da Estação”, protesto que juntou centenas de pessoas e transformou por um dia a praça Rui Barbosa em uma praia, com fontes virando mares, o concreto virando areia e os moradores virando turistas, levando suas roupas de praia, cangas e coolers com cerveja. O evento fez tamanho sucesso que no dia 4 de maio do mesmo ano o decreto foi revogado.

O Carnaval, que era considerado um evento distante e elitizado na capital mineira, com fuga de moradores e turistas, viu então nesse fato o momento de se erguer e marcar seu ressurgimento como festa característica da cidade. Um mês depois da primeira “praia”, diversos blocos com vários foliões saíram para a festa e os movimentos de retomada dos espaços públicos criaram voz. Em entrevista para o jornal Hoje em Dia, Rafael Barros, antropólogo organizador de vários blocos, explicou essa expansão: “A fórmula disso é bem simples: tudo aquilo que é confinado sem válvula de escape, sem pontos de fuga, um dia, inevitavelmente, explode, transborda! Há também toda a musicalidade mineira que encontrou no carnaval um espaço para criar e brincar e a força da alegria enquanto afeto pulsante a nos religar”, disse.

Os anos se passaram e foi perceptível um crescimento exponencial dos blocos e do número de adeptos. O que antes acontecia entre dezenas ou centenas de amigos, começou a atrair multidões. Já em 2015, mais de 1,5 milhão de foliões tomaram as ruas da capital mineira em fevereiro, conforme dados divulgados pela Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur). Cerca de 200 blocos desfilavam pela cidade, com destaque para o Baianas Ozadas, que ao som de axé atraiu mais de 100 mil pessoas.

Entre idas e vindas de investimentos e patrocínios, a festa em 2017 bateu recorde de público, arrastando mais de 3 milhões de pessoas nas ruas, com 350 blocos e 416 desfiles pela cidade.

Já em 2018, ano das últimas eleições presidenciais, a festa deixou ainda mais clara seu caráter político. Com 3,8 milhões de pessoas, o carnaval englobou um extenso ramo de movimentos políticos retratados pelas diferentes demandas da capital mineira. Com blocos como o afro “Angola Janga”, o LGBTQ+ “Alô Abacaxi”, o feminista “Bruta Flor”, o que discute a discriminação do uso de drogas “Bloco do Manjericão”, e o que aborda a mobilidade urbana “Bloco da Bicicletinha”. Além deles, ainda há os que são focados em questões específicas de cada região, como o “Esperando o Metrô no Barreiro” e o “Parque Já no Jardim América”.

O carnaval de 2019 chegou com novo recorde para a cidade, com 4,3 milhões de foliões nas ruas e um investimento de mais de R$14 milhões e grande lucro para o município. Ao som de “quem deu, deu; quem não deu, não damares”, marchinha vencedora do 9° Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, foi dada a largada à festa de Belo Horizonte de 2020, atraindo 4,5 milhões de pessoas com suas fantasias repaginadas.

Marchinha de Alexandre Rezende, vencedora de concurso no carnaval de 2020 em BH.

A festividade de 2021, por outro lado, vem sob novos moldes e sem data prevista. A Prefeitura informou que não haverá a festa conforme o feriado tradicional, devido à pandemia do novo coronavírus. Além do pronunciamento do órgão, em entrevista para o jornal Brasil de Fato, Márcio Eustáquio, presidente da Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais, apontou que escola de samba nenhuma vai desfilar em cima do luto de ninguém ou sem segurança sanitária.

Blocos temáticos, cortejos em ocupações urbanas e favelas, pautas de movimentos sociais, fantasias sem julgamento, músicas de axé, passando pelo funk, reggae e jazz. São muitas as narrativas que atravessam o carnaval belo-horizontino. A festa, que ainda não tem seus contornos definidos, segue em formação e, quanto a nós, foliões que fazem do ano inteiro um pré ou pós carnaval, resta esperar sempre pela festa do ano seguinte.

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