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Edição Jornalística – PUC Minas

Cidade

Quando a cidade cresce, a mata encolhe: os efeitos da expansão na RMBH

Incêndios florestais, avanço da mineração e irregularidades ambientais agravam crise climática e impactos ambientais em Belo Horizonte

Gabriel Arlindo Costa Soares, Guilherme Martins Robson, João Vitor Rangel Matos e Lucas Silveira Marques

O avanço econômico da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), impulsionado principalmente pelo setor industrial, intensificou o fluxo migratório em direção à capital mineira e aos municípios vizinhos. A busca por emprego e qualidade de vida acelerou a ocupação territorial e a construção de novas moradias. No entanto, esse crescimento ocorreu, em muitos casos, de forma desordenada, avançando sobre margens de rios, encostas de morros e áreas de preservação ambiental, o que resultou em impactos significativos para o meio ambiente e para a qualidade de vida da população.

Segundo Charles Pimenta, geógrafo pela PUC Minas, o avanço de grandes condomínios em cidades como Nova Lima e Lagoa Santa ilustra os efeitos dessa urbanização acelerada. Empreendimentos como Vale dos Cristais e Vale do Sereno transformaram extensas áreas de vegetação nativa em complexos residenciais, reduzindo remanescentes da Mata Atlântica e afetando a biodiversidade local.

Foto: JonataBolzanLoss/Wikimedia Commons

Além da expansão imobiliária, a mineração também tem ampliado as pressões ambientais. Em 2025, a Câmara Municipal de Belo Horizonte realizou uma audiência pública para discutir denúncias de mineração ilegal na Serra do Curral. O debate foi motivado pelos desdobramentos da Operação Rejeito, da Polícia Federal, que investiga possíveis fraudes em licenças ambientais, sonegação de impostos e irregularidades na liberação de empreendimentos minerários. Para Pedro Andrade, advogado do Projeto Manuelzão e do Instituto Guaicuy, o que veio à tona é apenas “a ponta do iceberg”, sendo necessário investigar a rota do dinheiro e o papel de diferentes instituições na manutenção desse esquema.

“As mineradoras acham que estão acima da lei, e se nada for feito isso vai permanecer, pois a estrutura que permitiu essa organização criminosa operar ainda continua vigente”, disse Pedro Andrade.

Incêndios, estiagem e degradação ambiental

No segundo semestre de 2024, a RMBH enfrentou uma escalada de incêndios florestais, agravada por ondas de calor, baixa umidade do ar e longos períodos de estiagem. A Defesa Civil já previa aumento nas ocorrências, mas a ação humana foi apontada como principal causa dos focos de incêndio.

Dados da Polícia Civil de Minas Gerais indicam que, entre janeiro e setembro, foram concluídos 687 procedimentos investigativos relacionados ao crime de provocar incêndio em mata ou floresta — crescimento de 98% em comparação com todo o ano de 2023. No mesmo período, a Polícia Militar conduziu 216 pessoas em ocorrências ligadas a incêndios, sendo 76 por crimes em áreas florestais.

O desmatamento intensifica esse cenário. A retirada da vegetação compromete os ciclos da água e do carbono, reduz a infiltração da água no solo e aumenta a vulnerabilidade a erosões e deslizamentos. “Sem cobertura vegetal, você não tem água”, afirma Charles Pimenta. Segundo ele, a vegetação garante a infiltração que abastece lençóis freáticos e sustenta o regime de chuvas.

A RMBH passou recentemente por 172 dias de estiagem. Em 8 de setembro, Belo Horizonte registrou 36,8ºC, recorde de temperatura no ano, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), evidenciando os efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas.

Microclima e expansão urbana

As transformações na paisagem também alteram o microclima da região. A substituição de áreas verdes por asfalto, concreto e edificações favorece a formação de ilhas de calor. Essas superfícies absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente à noite, elevando as temperaturas médias nas áreas urbanizadas.

Foto: Delwar Hossain/Wikimedia Commons

Mayra Siqueira, coordenadora da pós-graduação em Emissões Atmosféricas e Mudanças Climáticas da PUC Minas, destaca que o crescimento urbano e industrial amplia as emissões de gases de efeito estufa (GEE), seja pelo uso de combustíveis fósseis, seja pelo aumento do consumo energético. A poluição atmosférica contribui para o aumento das temperaturas, interfere na formação de chuvas e pode intensificar fenômenos como chuva ácida.

Mineração, emissões e pressões ambientais

A exploração mineral é outro fator determinante no aumento das emissões e na degradação ambiental da RMBH. A forte presença do setor siderúrgico e das atividades de extração demanda uso intensivo de combustíveis fósseis, explosões para retirada de minério e alto consumo de energia elétrica.

Durante a audiência pública na Câmara Municipal, representantes do Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango denunciaram a ausência de consulta prévia às comunidades afetadas por atividades minerárias. Parlamentares discutiram ainda a possibilidade de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e a destinação de recursos bloqueados pela Operação Rejeito para recuperação ambiental da Serra do Curral.

Foto: Diego Baravelli / Wikimedia Commons

A pressão sobre áreas estratégicas para o abastecimento hídrico, como a Serra do Gandarela, o Vale do Rio Paraopeba e o Vale do Rio das Velhas, também preocupa especialistas, já que essas regiões são fundamentais para o equilíbrio ecológico e o fornecimento de água à capital.

Inovação mineral e produção nacional de terras raras

Enquanto a mineração tradicional enfrenta críticas por seus impactos ambientais, iniciativas voltadas à inovação tecnológica buscam estruturar uma cadeia produtiva nacional mais estratégica. Neste domingo, um laboratório brasileiro iniciou testes para produção de ímãs de alta potência utilizando matéria-prima extraída no Planalto de Poços de Caldas.

Um lote de 20 quilos de carbonato de terras raras foi entregue pela mineradora Meteoric ao Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras (CIT Senai ITR). É a primeira vez que o projeto utiliza material obtido a partir de extração em solo brasileiro — até então, os insumos eram importados da China.

Foto: Publioermeson/Wikimedia Commons

O carbonato foi produzido na planta piloto da empresa, inaugurada em dezembro em Poços de Caldas. Segundo a mineradora, a cada 600 quilos de argila extraída são obtidos cerca de 2 quilos de carbonato. A iniciativa busca reduzir a dependência externa e fomentar uma cadeia produtiva nacional de materiais estratégicos.

Desafios e responsabilidades

Especialistas destacam que o principal desafio é garantir o cumprimento das legislações ambientais e fortalecer o planejamento urbano. Para Charles Pimenta, as normas de uso e ocupação do solo precisam ser debatidas e aprimoradas para conter a especulação imobiliária e proteger áreas sensíveis.

Mayra Siqueira reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à sustentabilidade, com incentivo a infraestruturas verdes, mobilidade urbana eficiente e proteção das áreas nativas. No setor privado, a adoção de práticas sustentáveis, eficiência energética e transparência é essencial.

“A integração entre todos os atores, governos, empresas e sociedade, é indispensável. E isso se torna ainda mais evidente quando tomamos consciência de que temos apenas um planeta, e só uma chance de garantir um futuro sustentável. A hora de agir é agora, e cada passo dado em direção à sustentabilidade pode fazer a diferença”, afirma Mayra Siqueira.

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