O preço do crescimento: Carnaval de BH enfrenta dilema entre tradição e espetacularização
Em 1897 acontecia o primeiro Carnaval na Cidade de Minas. Homens vestidos de mulher desfilavam da Praça da Liberdade até a Avenida Afonso Pena, inaugurando a festa antes mesmo da promulgação da cidade como capital do estado.
A tradição foi seguida pelas bandas carnavalescas e os bailes populares. Já na década de 30, surgiram as primeiras batalhas de confete. Na década seguinte, os famosos blocos caricatos começaram a marcar presença, construídos com os foliões que desfilavam com os rostos sujos de carvão – os “caras pintadas”. Os blocos caricatos que nasceram nessa década foram os precursores das festas dos dias de hoje. O primeiro bloco de rua da cidade foi o Leão da Lagoinha, que surgiu em 1947.
Só em setembro de 2000, a prefeitura da cidade instituiu oficialmente o Carnaval belo-horizontino como celebração municipal, e os blocos populares tomaram cada vez mais espaço no cotidiano carnavalesco.
Patrícia Menezes, 57 anos, é de Vespasiano e não perde o Carnaval na capital. Para ela, o diferencial da festa em Belo Horizonte é a segurança. Ela frequentou vários blocos, entre eles o Beiço do Vando, Sustenido, Então Brilha e Marinada, e a animação dos blocos populares é o que mais a comove: “A energia era incrível. […] Sempre que tiver oportunidade eu vou”, declarou Patrícia. Ela afirma que também vai passar o próximo ano em Belo Horizonte.
De acordo com levantamentos das plataformas de transporte Buser e Clickbus, a capital já é o segundo destino mais procurado do país no Carnaval, e o apreço pela festa na cidade aumenta cada vez mais. Dados da Secult apontam que a folia de 2026 contou com a presença de 315 mil turistas, 15 mil a mais que em 2025, consolidando a festa como a maior edição feita na cidade até o momento. Enquanto, no passado, o fluxo carnavalesco priorizava as festas do interior de Minas Gerais, hoje, a capital do estado é protagonista.
Mas o crescimento é recente: ainda há pouco tempo nosso Carnaval era considerado uma tradição local, esvaziada, sustentada por poucos atores. Foi em meados dos anos 2010 que a prefeitura viu potencial no Carnaval belo-horizontino e começou a apoiar os blocos desde então, transformando a pulsão da população local por festa e identificação em um destino turístico do Brasil todo.
As ruas de hoje
Na folia de 2026, uma das principais queixas levantadas pelos carnavalescos foi a “invasão” dos megablocos e artistas nacionalizados. Nos desfiles, eles acusaram diferença no tratamento destinado, pelos órgãos públicos, aos diferentes agentes do Carnaval, desvalorizando a presença dos blocos tradicionais. Estes seriam os reais responsáveis pela repopularização do Carnaval de rua na cidade: um fenômeno único que permitiu o protagonismo dos artistas independentes.
AMANDONA!, vocalista do bloco Abalô-caxi, é figurinha carimbada nos carnavais belo-horizontinos. Agora, ela também é dona de seu próprio cortejo, o Bloco da AMANDONA! que desfila nos pré carnavais.
Ela defende que, quando a folia de rua passa a ser ocupada pelos artistas nacionalizados sem que exista um plano de compensação justa, gera-se um desequilíbrio: “Eles já chegam com público consolidado, grandes patrocínios e investimentos altos. A cena local não consegue competir em estrutura e dinheiro com esse modelo. Muitos blocos tradicionais da cidade tiveram investimentos minguados ou nem mesmo tiveram investimento”.
O Abalôcaxi nasceu em 2016, através de uma conversa entre amigos que acompanhavam a onda retomada dos blocos de rua na capital mineira após 2010. AMANDONA! conta que, inspirados pela tropicália, a ideia era ocupar a rua com um espaço que celebrasse a cultura LGBT+: “surge justamente desse desejo coletivo de reocupar a cidade, fortalecer a cultura de rua e construir espaços mais diversos, representativos e politicamente conscientes dentro da festa”.
O cortejo belo-horizontino

Junto do Carnaval de rua, caminha o Carnaval de passarela. Durante a década de 2000, período de esvaziamento da festa de rua na capital mineira, as escolas de samba tiveram papel fundamental para não deixar a data passar esquecida. A tradição completou 89 anos neste ano, com o aniversário da extinta Pedreira Unida, primeira agremiação da cidade fundada em 1937.
Alvimar Neri Pinto é presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Minas Gerais. “As escolas de samba são o Brasil que deu certo. Não é atoa que, lá fora, é o nosso produto mais conhecido”, defende Alvimar. Ele explica que, em Belo Horizonte, o protagonismo e a gestão das escolas segue integralmente nas mãos da população negra, periférica e metropolitana, conservando as características que deram origem a essa expressão cultural.
Com o crescimento do Carnaval de rua, o público dos desfiles também aumentou, mas o presidente chama atenção para a necessidade de políticas públicas que durem o ano inteiro: “o Carnaval ainda é visto muito como um evento. E o evento é muito efêmero, é muito pontual. […] O Carnaval de passarela exige um planejamento, uma organização, uma preparação de, no mínimo, seis meses de antecedência”.
O proveito de 2026
O ritmo de crescimento acelerado persiste até hoje. Só neste ano, a festa arrecadou R$ 1,4 Bi para a capital, um aumento de 10%, além do número recorde de foliões, cerca de 6,6 Milhões de pessoas, sendo 8,3% a mais que a edição anterior, de acordo com a Belotur. O setor hoteleiro da cidade também registrou a maior alta de sua história durante o feriado, alcançando a capacidade de 83,5% em média na capital inteira, um aumento de 8,9% em relação ao ano passado.
A celebração também aumentou. Só neste ano, foram registrados 600 blocos de rua, em comparação com 460 no ano de 2025. 2026 também foi recorde para a quantidade de ambulantes registrados, 11.528 no total, somando um aumento de 12% ao ano passado.
A prefeitura de Belo Horizonte já confirmou as datas da edição de 2027, sendo as datas de 23 de janeiro até 14 de fevereiro. Os dados completos sobre as expectativas de 2027 ainda não foram oficialmente publicados, no aguardo da publicação de todos os relatórios referentes ao evento de 2026.
Produzido por: Carolina Gonzalez, Carolina Gouvêa, Victor Kauffmann e Rayssa Moura.
