A geografia do sabor: o dualismo gastronômico de Belo Horizonte
Entre o refinamento técnico da Região Centro-Sul e a resistência cultural dos botecos periféricos, a capital mineira desenha sua identidade em dois mapas distintos
Letícia Souza, Marina Morena, Thiago Brene
Em Belo Horizonte, capital mineira, a história do povo mais hospitaleiro do país se encontra com a paixão pela gastronomia, e o reconhecimento da UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia reforça essa força que aparece tanto nos restaurantes sofisticados quanto nos botecos simples espalhados pelos bairros, mostrando que a culinária faz parte da identidade da capital mineira.
Na Região Centro Sul, em bairros como Lourdes e Savassi, estão os restaurantes mais sofisticados da cidade, espaços que pensam cada detalhe da experiência e costumam trabalhar com menu degustação, valorizando a criação do chef e misturando técnicas internacionais com ingredientes locais, o que acaba atraindo um público disposto a pagar mais por esse tipo de proposta.
Comida di Buteco: o protagonismo da cozinha de raiz
Em contrapartida a esse eixo de sofisticação, surge o fenômeno do Comida di Buteco. Criado no ano 2000, o concurso nasceu com a missão de resgatar e valorizar a culinária dos bares familiares, os chamados “pés-sujos” que carregam identidade e história. Diferente dos guias gastronômicos tradicionais, o Comida di Buteco descentraliza o mapa do sabor e ignora fronteiras de CEP, colocando estabelecimentos de Venda Nova, Barreiro e da Região Leste no mesmo patamar de visibilidade dos bairros nobres.
O concurso valoriza os bares de família e a comida feita com cuidado, aproximando público e jurados na escolha dos melhores petiscos e destacando não só o sabor, mas também o atendimento, a higiene e a temperatura da bebida, o que faz o concurso ganhar força em diferentes regiões de Belo Horizonte.
No mapa interativo abaixo, além das marcações para os principais bares e restaurantes da cidade, mostrando a predominância das áreas de classe média e alta, os cinco vencedores de 2025 aparecem marcados com estrelas amarelas. Um deles é o Espetinhos do Paulão, no bairro Vila Ermelinda, que ganhou destaque ao se tornar bicampeão do concurso em 2024 e 2025, mostrando que tradição e dedicação também conquistam reconhecimento na cidade.
https://www.google.com/maps/d/edit?mid=1NKrz3YOiy9IycqXRMqNBXyC-6WzRx-U&usp=sharing
Identidade híbrida e território
Essa cartografia revela uma cidade que equilibra a técnica profissional e a intuição popular. Se no Centro-Sul o reconhecimento vem da crítica especializada, nos bairros periféricos ele é conquistado no voto popular e na fidelidade do vizinho, mostrando que o mapa da gastronomia belo-horizontina é, portanto, um reflexo de suas tensões sociais e culturais.
O contraste é evidente, mas não excludente. A capital mineira consegue ser, simultaneamente, o destino do menu autoral e da cerveja de garrafa compartilhada em mesas de metal na calçada. O encontro do prato de porcelana com o copo lagoinha é o que define o verdadeiro tempero de BH: uma cidade que, independentemente da sofisticação do ambiente, coloca o encontro e a mesa como o centro da vida pública.
