BH em Movimento: quem paga a conta da mobilidade ?
Ônibus lotados, metrô limitado, trânsito intenso e integração precária com cidades da Região Metropolitana impactam diariamente milhões de pessoas
João Gabriel Fernandes, João Pedro Diniz e Neemias José Feres
O transporte público em Belo Horizonte é, há anos, um dos principais desafios enfrentados por trabalhadores e estudantes. Segundo dados da CNT, os passageiros passam, em média, 57 minutos dentro do coletivo por viagem. No fim do dia, o tempo gasto no deslocamento pode chegar a quase três horas, uma parcela significativa da rotina dedicada apenas ao trajeto entre casa, trabalho ou escola.
Na Região Metropolitana, a realidade é ainda mais dura. Quem sai de cidades como Betim pode levar de uma a duas horas para completar o percurso. Nos horários de pico , das 6h às 8h30 e das 16h30 às 19h, a superlotação e a espera prolongada se tornam parte do cotidiano.
No metrô, o intervalo médio entre trens varia de 7 a 15 minutos, mas as obras de modernização já fizeram esse tempo chegar a 21 minutos em alguns dias. Já nos ônibus, passageiros relatam atrasos frequentes, redução de frota em períodos específicos e veículos lotados, especialmente nas regiões periféricas.
Entre as linhas com maior volume de reclamações estão a 62 (MOVE/Estação Venda Nova – Centro/Ribeirão das Neves) e a 5201 (Dona Clara/Buritis). Muitas das queixas se concentram em trajetos que atendem o Barreiro e bairros mais afastados, onde problemas como descumprimento de horários e falhas no serviço são recorrentes.

Álvaro Tavares/ O Tempo
Tarifa mais cara, sistema subsidiado
Em janeiro de 2026, a passagem em BH subiu para R$ 6,25, um aumento de 8,6%. Linhas alimentadoras passaram a custar R$ 6,00. Apesar disso, a Tarifa Zero foi mantida aos domingos, feriados e em linhas que atendem vilas e favelas.
Mesmo com o reajuste, o valor pago pelo usuário cobre apenas cerca de 26% do custo real do sistema. A chamada “tarifa técnica” ultrapassaria R$ 10 sem subsídios. Para 2026, a Prefeitura prevê um repasse de aproximadamente R$ 756,9 milhões às empresas operadoras.
Comparada a outras capitais, BH aparece entre as passagens mais caras do país. Enquanto a capital mineira cobra R$ 6,25, São Paulo fixou a tarifa em R$ 5,30, o Rio de Janeiro em R$ 5,00 e Florianópolis pratica R$ 6,20 no cartão cidadão.
Metrô em expansão
O metrô da capital vive uma fase de transformação. Desde março de 2023, o sistema é administrado pela concessionária Metrô BH. Atualmente, opera apenas a Linha 1 (Eldorado – Vilarinho), com 19 estações.
A principal aposta é a construção da Linha 2 (Nova Suíça – Barreiro), iniciada em 2024, com previsão de sete novas estações ao longo de 10,5 km. A promessa é reduzir o tempo de deslocamento em uma das regiões mais populosas da cidade e aliviar a pressão sobre o sistema de ônibus.
A expectativa é que, com a expansão e modernização, o metrô atenda cerca de 270 mil passageiros por dia. Ainda assim, o aumento da tarifa para R$ 5,80 em 2025 e debates sobre compensações financeiras à concessionária geraram questionamentos.

Álvaro Tavares/ O Tempo
Frota cresce, trânsito piora
Enquanto o transporte coletivo busca reestruturação, o número de veículos particulares cresce em ritmo acelerado. Em 2025, Minas Gerais registrou alta de 9,6% nas vendas de carros novos. Na Região Metropolitana de BH, a frota já ultrapassa 2,6 milhões de veículos.
O resultado aparece nas ruas: congestionamentos mais longos, aumento da poluição e maior pressão sobre a infraestrutura urbana.
Para enfrentar o cenário, a Prefeitura aposta na renovação da frota, incluindo a meta de 100 ônibus elétricos, e na ampliação de corredores exclusivos, como o projeto do BRT Amazonas. Também estão previstas novas ciclovias em vias estratégicas, integrando mobilidade ativa ao transporte público.
Chuvas e vulnerabilidade
Nos períodos de chuva intensa, o sistema mostra ainda mais fragilidade. Alagamentos e retenções em corredores importantes ampliam atrasos e tornam o deslocamento imprevisível, sobretudo nas regiões periféricas.
A soma de tarifa elevada, crescimento da frota particular, subsídios milionários, obras em andamento e impactos climáticos revela um dos maiores dilemas estruturais da capital. Em Belo Horizonte, discutir mobilidade urbana é falar de qualidade de vida, acesso a oportunidades e inclusão social.
Mais do que levar pessoas de um ponto a outro, o transporte define o ritmo da cidade, e o desafio agora é torná-lo mais eficiente, acessível e sustentável para quem depende dele todos os dias.
