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Edição Jornalística – PUC Minas

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O impacto das chuvas na mobilidade urbana na Grande BH

Períodos intensos de precipitação expõem fragilidades estruturais da capital mineira e pressionam o sistema de transporte público e a malha viária da Região Metropolitana

Nas últimas semanas, Belo Horizonte e municípios da Região Metropolitana têm enfrentado períodos intensos e prolongados de chuvas volumosas. Comuns no verão da Região Sudeste, as tempestades torrenciais são resultado da combinação de altas temperaturas, elevada umidade e da atuação de sistemas atmosféricos como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais responsáveis pelas precipitações persistentes entre o fim da primavera e o verão. 

Embora essenciais para o abastecimento hídrico e manutenção dos ecossistemas fluviais, a intensificação das precipitações expõe vulnerabilidades históricas da infraestrutura da capital mineira, criando complicações de mobilidade urbana, especialmente, para os usuários de transportes públicos. Ônibus superlotados e atrasados, trânsito que se estende por quilômetros pelas principais vias da cidade, inundações e alagamentos que colocam em risco a saúde e integridade física dos usuários, tornam-se cenários comuns em Belo Horizonte durante o período chuvoso. 

Dados do relatório do período chuvoso de 2024 a 2025, divulgado pelo Governo de Minas Gerais, apontam que o volume expressivo de precipitações resultou em múltiplas ocorrências de alagamentos, deslizamentos e danos à infraestrutura urbana em diversas regiões do estado. Em Belo Horizonte, o balanço climático de março de 2025 registrou acumulado de 134,3 mm de chuva – o equivalente a 68% da média climatológica mensal de 197,5 mm. Ainda que abaixo da média histórica, a concentração das chuvas em poucos dias foi suficiente para pressionar o sistema de drenagem e comprometer a circulação viária. 

Créditos: Flavio Tavares – O Tempo

Alguns corredores concentram impactos recorrentes, como as avenidas Cristiano Machado, Vilarinho e Teresa Cristina, além de trechos da Bernardo Vasconcelos e da região do Barreiro. Essas vias são fundamentais para a integração entre bairros e municípios da Grande BH, como Contagem, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Quando ficam alagadas, o efeito se espalha em cadeia, comprometendo linhas metropolitanas e criando congestionamentos que atravessam diferentes regiões.

A Carta de Inundações da Bacia do Ribeirão Arrudas teve seu relatório mais recente elaborado pela Universidade Federal de Minas Gerais, por meio da Fundação Christiano Ottoni, em 2023. O documento é um instrumento técnico de mapeamento de risco hidrológico que simula, por meio de modelagem hidrológica e hidráulica, o comportamento da água durante eventos extremos de chuva. A partir de dados atualizados de topografia, uso e ocupação do solo e monitoramento municipal, o estudo delimita áreas suscetíveis a inundação e apresenta estimativas de profundidade, velocidade do escoamento, risco hidrodinâmico e tempo de chegada das cheias. 

Carta de Inundações da Bacia do Ribeirão Arrudas (2023)
Carta de Inundações da Bacia do Ribeirão Arrudas (2023)

O relatório aponta que a bacia do Arrudas é altamente sensível a eventos intensos, em razão do relevo íngreme, da forte impermeabilização e da concentração de corredores viários em fundos de vale, fatores que favorecem inundações rápidas e de alto potencial de impacto. Ainda assim, o próprio estudo reconhece que mesmo áreas não identificadas no mapeamento podem sofrer alagamentos, evidenciando os limites estruturais da cidade diante da intensificação climática.

Em entrevista, o professor titular da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (EHR-UFMG) e integrante da equipe responsável pela atualização da Carta de Inundações da Bacia do Ribeirão Arrudas, Nilo de Oliveira Nascimento, explica que, desde o primeiro mapeamento, em 2009, até a versão atualizada, em 2023, houve uma ampliação das áreas inundáveis. Segundo ele, isso é resultado tanto da maior precisão dos modelos hidráulicos quanto das mudanças no uso e ocupação do solo ao longo dos últimos anos. Embora muitos pontos críticos permaneçam os mesmos, há hoje mais habitações e vias inseridas nessas áreas, o que amplia a exposição ao risco.

De acordo com o pesquisador, a combinação de relevo acentuado, solo altamente impermeabilizado e um sistema de drenagem convencional faz com que a resposta das bacias urbanas seja extremamente rápida, o que é potencialmente perigoso e contribui para que corredores viários se tornem intransitáveis em intervalos curtos. “Nas pequenas bacias, estamos falando de minutos. No caso do Arrudas, o tempo de subida da cheia não chega a uma hora”, afirma.

Ele destaca ainda o chamado risco hidrodinâmico — indicador do potencial de instabilidade e arraste que considera não apenas a profundidade da água, mas também sua velocidade e pode — como um fator crítico no contexto urbano. “Existe um risco, geralmente não para veículos, mas para as pessoas, porque as velocidades podem ser extremamente altas”, explica. Nascimento observa que, além das áreas de inundação já mapeadas, há também pontos de enxurrada que ainda não estão completamente identificados, mas que afetam diretamente a mobilidade em áreas movimentadas, como em pontos da Avenida Amazonas.

Para o professor, mesmo com a implantação de bacias de detenção e outras obras de macrodrenagem, a cidade precisará conviver com as inundações. “As inundações vão estar aí. O foco precisa ser a redução do risco de perda de vidas e da perturbação do trânsito, do comércio e das residências”, afirma. Ele também faz uma previsão sobre o aumento na ocorrência de eventos extremos e alerta que “é preciso integrar esses cenários nos novos planejamentos e soluções e trabalhar para adaptar as cidades”.

A responsabilidade pela manutenção preventiva e pelos investimentos em infraestrutura é fundamental para reduzir alagamentos, transtornos no trânsito e riscos à população. Segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte, somente em 2025 foram realizadas a limpeza de quase 100 mil bocas de lobo, a retirada de 1.910 toneladas de resíduos, a desobstrução de 44,5 mil metros de redes pluviais e a remoção de 5,3 mil toneladas de lixo dos córregos. As ações impactam diretamente o escoamento da água e a fluidez das vias.

A cidade conta ainda com 19 bacias de detenção, com capacidade total de 3 milhões de metros cúbicos.

O trabalho envolve diferentes órgãos públicos, como a Prefeitura de Belo Horizonte, a BHTrans e a Superintendência de Limpeza Urbana, que atuam de forma integrada para prevenir pontos críticos de alagamento e garantir a segurança viária. A eficácia dessas medidas, no entanto, depende de monitoramento contínuo, manutenção regular e planejamento de longo prazo.

Além do Executivo, a Câmara Municipal de Belo Horizonte exerce papel crucial na fiscalização e no direcionamento das políticas de drenagem e mobilidade urbana. Relator da Comissão de Enfrentamento a Enchentes da CMBH, o vereador Wagner Ferreira (PV) afirma que a atuação envolve visitas técnicas às bacias de contenção e às obras em andamento, além do mapeamento de pontos críticos de alagamento. “A gente tem feito fiscalização em campo, com visitas técnicas às bacias e às obras, mapeamento dos pontos críticos de alagamento e identificação de córregos que transbordam e causam enchentes graves na cidade”, afirma.

Wagner cita como exemplo a bacia da Vilarinho, em Venda Nova, que, segundo ele, já apresentou resultados práticos na contenção de cheias durante os temporais. “A cidade avançou, sim, em medidas preventivas. Um exemplo é a bacia da Vilarinho, que funciona e já foi testada em chuvas fortes: ela enche e segura a água, evitando parte dos alagamentos que eram mais recorrentes”, pontua. Ainda assim, ele ressalta que há obras paralisadas ou atrasadas, como a Vilarinho 2 e a bacia do Nado, o que mantém a capital dependente de medidas emergenciais, como desentupimento de bueiros e respostas pontuais durante chuvas intensas.

No debate sobre mobilidade, o parlamentar defende a revisão do atual contrato do transporte coletivo e a criação de um plano específico para dias de chuva, com reforço de frota e operação emergencial mais previsível. “BH, quando chove, simplesmente não funciona e quem depende do ônibus é quem mais sofre”, afirma.

O vereador também destaca que, por se tratar de Região Metropolitana, os impactos não se restringem à capital e exigem articulação entre municípios e Estado, especialmente em obras de drenagem e preservação ambiental que afetam corredores compartilhados.

Captura de tela de celular exibindo alerta extremo de deslizamentos de solo em Minas Gerais, com recomendações da Defesa Civil.
Aviso da Defesa Civil informa risco elevado de deslizamentos e orienta a população sobre medidas de segurança.

Na capital mineira, a Defesa Civil de Belo Horizonte tem reforçado o uso do sistema “Defesa Civil Alerta”, que utiliza tecnologia de transmissão via telefonia celular para enviar mensagens emergenciais à população. A ferramenta complementa os canais oficiais de comunicação e tem como principal objetivo prevenir e reduzir os impactos provocados por desastres naturais. Por meio do sistema, moradores que estejam em áreas com risco iminente de alagamentos, enxurradas, deslizamentos de terra, vendavais ou queda de granizo recebem avisos e orientações diretamente no celular, em tempo real. As mensagens são elaboradas e enviadas pelas Defesas Civis estadual e municipal, responsáveis pela atualização constante das informações e pelo monitoramento das áreas vulneráveis.

Em situações de risco ou emergência, a população pode acionar a Defesa Civil pelo telefone 199, canal direto para solicitar apoio, relatar ocorrências e receber orientações. Além disso, aplicativos de navegação, como Google Maps e Waze, também têm emitido alertas sobre condições climáticas associadas ao trânsito, informando motoristas sobre pontos de alagamento, interdições e outras áreas de risco, contribuindo para a segurança viária durante os períodos de chuva intensa.

Produzido por: Alice Oliveira, Ilana Penido, Maria Eduarda Abranches e Mariele Ferreira.

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