Grupo Corpo, o raio x que revela o jeito sinuoso de Belo Horizonte
Celebramos o Grupo Corpo como um dos grandes pontos de demonstração da cultura belo-horizontina, um símbolo que traduz em movimento a identidade da cidade
Gabriela de Araújo Sousa
Sinuosa, feita de curvas e de incessantes sobes e desces, de sabores que mudam a cada esquina, a cultura de Belo Horizonte encanta quem vem por aqui. Porque só um mineiro saberia unir relevo acidentado com acolhimento e a nossa velha e boa tradição com invenção e criatividade. BH é feita de detalhes, que se unem nas cozinhas, bares, e na calma e jeitinho do mineiro de fazer.
Dentro dos bares e restaurantes cheios, onde a comida típica é defendida por muitos como a melhor do Brasil, nasce também a musicalidade e o ritmo que moldam a identidade da cidade. É ali, entre um prato típico e outro, que se constrói um jeito muito próprio de ver o mundo. Então não poderia ser diferente existir, dentro dessa mesma cultura, um grupo que une o clássico com o coração belo-horizontino.

Esse é o Grupo Corpo, criado em Belo Horizonte e há 50 anos referência internacional quando o assunto é dança contemporânea. O grupo representa a cidade não apenas pelo endereço de origem, mas pela maneira como traduz Minas em movimento. Com uma nova apresentação que traz trilha assinada pela compositora mexicana Gabriela Ortiz, o Corpo estreou no palco do Walt Disney Concert Hall, sede da Orquestra Filarmônica de Los Angeles. Um palco grandioso, mas que, de certa forma, recebeu ali um pedaço da capital mineira.
A música escolhida para o espetáculo é um ponto-chave. Complexa, densa e carregada de significado, foi criada para traduzir musicalmente os protestos que inundaram ruas da Cidade do México em 2019, denunciando a violência contra as mulheres. E o Grupo teve a árdua tarefa de transformar tudo isso em movimento, de equilibrar a delicadeza técnica com o peso do tema.
A apresentação foi uma encomenda do maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que neste ano se despede da Filarmônica de Los Angeles para assumir a Filarmônica de Nova York. A responsabilidade era grande: unir a grandiosidade de uma orquestra internacional e a complexidade de uma trilha engajada. Mas o Corpo fez o que sempre fez ao longo de cinco décadas e conseguiu misturar o clássico com uma energia que só quem é de BH tem.

Conhecido por suas cenografias e figurinos arrojados, além das colaborações com grandes músicos brasileiros, o Grupo Corpo ajudou a definir, no imaginário internacional, a “cara e cor” de Minas Gerais. Leva BH para fora, apresenta ao mundo uma cidade que não é apenas culinária e hospitalidade como muitos conhecem, mas também pensamento e arte. Não é algo unilateral, como pode parecer à primeira vista. Em Belo Horizonte, a dança e o movimento também são parte importante da construção cultural.
Ao olhar para o Grupo Corpo, você vê mais do que uma companhia de dança. É um retrato da cidade: técnica e emoção lado a lado, tradição que se junta com o moderno, e uma capacidade de transformar complexidade em beleza. Um verdadeiro raio x da cultura belo-horizontina.
