Cruzeiro x Atlético, uma rivalidade centenária e simbólica
Dois times que quando se enfrentam fazem Minas Gerais parar por 90 minutos
Hadriann Cristian, João Augusto, Leonardo Rezende, Lucas Rodrigues
Azul, preto, Raposa e Galo, Cabuloso e Vingador, a simbologia por trás das cores e dos animais não é coincidência. Há uma história nascida na capital mineira, Belo Horizonte, tão forte que foi capaz de dividir Minas Gerais ao meio. Com a inauguração do maior palco do futebol mineiro, em 1965, o Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, hoje sede de alguns dos maiores eventos do esporte brasileiro, acendeu-se uma das maiores rivalidades do futebol nacional e também mundial. O clássico Cruzeiro x Atlético havia “nascido”.
Tudo começou com um grupo de 22 estudantes em Belo Horizonte, reunidos no coreto do Parque Municipal, no centro da cidade, que queriam um time para representar Minas Gerais. O nome inicial foi “Atlético Mineiro Foot Ball Club”. No entanto, em 25 de março de 1908, surge o Clube Atlético Mineiro, conhecido como o Galão da Massa. O mascote foi oficializado em 1940 e criado pelo chargista e desenhista Fernando Pierucceti, do jornal Folha de Minas. O Galo foi escolhido porque o Atlético era considerado um time de raça, que lutava até o final dos confrontos, além da associação com as famosas brigas de galo. Já a “Massa” tornou-se complemento do apelido devido à torcida alvinegra ser numerosa, apaixonada e engajada, remetendo a uma multidão. Suas cores, o tradicional preto e branco, foram escolhidas por decisão de seus fundadores em 1908, inspiradas na simplicidade e na força. A combinação reflete influências do início do século XX, com o preto representando raça e intensidade, enquanto o branco simboliza lealdade e nobreza.
Já do outro lado da Lagoa, expressão comumente usada entre as torcidas para se referir ao rival, além de referência à Lagoa da Pampulha, região onde está localizado o Mineirão, encontra-se o Cruzeiro Esporte Clube. O clube surgiu em 2 de janeiro de 1921, inicialmente com o nome de Palestra Itália, devido à sua origem ligada a imigrantes italianos que migraram para Belo Horizonte e buscavam representar a colônia por meio do esporte. Porém, por conta da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro proibiu referências a países do Eixo, como Alemanha, Itália e Japão, forçando a mudança para o tradicional Cruzeiro Esporte Clube.
O mascote, a Raposa, também foi criado por Fernando Pierucceti, em 1945. A escolha se deu em alusão ao então presidente do clube, Mário Grosso, conhecido por ser um exímio negociador de jogadores, agindo com sagacidade, o que lhe rendeu o apelido de “raposa velha”. Desde então, a Raposa passou a representar o clube, reforçando a ideia de um time esperto, inteligente e ágil, tanto nos bastidores quanto dentro de campo, e também pela relação simbólica com o Galo na cadeia alimentar. Assim como o nome, as cores também foram alteradas. Deixaram o verde, vermelho e branco, referência à bandeira italiana, para o azul celeste, símbolo em alusão à Squadra Azzurra, como é conhecida a seleção italiana.
O início da rivalidade
Mesmo que os clubes já tivessem se enfrentado outras vezes antes dos anos 1960, como em 1956, quando os rivais dividiram o título do Campeonato Mineiro, devido ao zagueiro Laércio, do Atlético, não ter cumprido o serviço militar obrigatório, foi apenas com a construção do Mineirão, em 1965, que a rivalidade efetivamente se intensificou. Com a inauguração do estádio, o Cruzeiro passou a ocupar o lado sul, setores Amarelo, conhecido como Lado da Cidade, enquanto o Atlético ficou com o lado norte, setores Laranja, chamado de Lado da Lagoa. Essa divisão se consolidou desde então. O Cruzeiro tradicionalmente prefere o gol à direita das cabines de rádio, enquanto o Atlético ocupa o gol à esquerda.
Com a divisão das torcidas, surgiram também organizações que se estendem até hoje e reforçam a rivalidade entre os clubes. Trata-se das maiores torcidas organizadas de cada lado, a Máfia Azul e a Galoucura, que protagonizaram uma série de embates dentro e fora de campo, dividindo o estado entre torcedores alvinegros e celestes. A rivalidade se fortaleceu a tal ponto que, em 2024, foi necessário um acordo entre os clubes para que, em dias de clássico, o mandante tivesse torcida única, em razão dos episódios de violência.
Contudo, o acordo não foi renovado para 2026 e, novamente, em mais uma final de Campeonato Mineiro, os dois clubes se enfrentam neste sábado, às 18h, no Mineirão, em mais um embate épico, agora com torcida dividida, reacendendo ainda mais a rivalidade que, por circunstâncias maiores, havia afastado seus torcedores dos clássicos. A final do Campeonato Mineiro 2026 será especial. O Atlético pode conquistar seu sétimo título estadual consecutivo, enquanto o Cruzeiro, após anos de crise e três temporadas na Série B, chega fortalecido para reconquistar a glória mineira e encerrar o jejum que se estende desde 2019, ano do rebaixamento e também a última vez em que o clube levantou a taça estadual.
reportagem especial sobre o clássico mineiro e a rivalidade entre Cruzeiro e Atlético, com participação do pesquisador e professor do Departamento das Engenharias Civil e Produção da Universidade Estadual de Minas, Felipe Alexandre Nunes.
