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Edição Jornalística – PUC Minas

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Guerra tarifária de Trump: qual o peso na balança da economia brasileira?

Agronegócio conta com impacto positivo, mas causa perdas para a indústria e pressões inflacionárias no Brasil 

Ana Cecília Araújo,  Júlia Maria Sousa, Mariana MaiaNathália Ferreira

As políticas econômicas e comerciais adotadas pelos Estados Unidos desde o início da nova gestão de Donald Trump, em janeiro deste ano, continuam reverberando sobre a economia brasileira. O retorno do ex-presidente ao centro do poder político global reacendeu discussões sobre os efeitos das medidas protecionistas norte-americanas, que afetaram diretamente setores estratégicos do Brasil, com consequências ainda sentidas no comércio exterior, nos preços internos e na condução da política monetária.

O setor que mais colheu frutos da guerra comercial entre Estados Unidos e China foi o agronegócio brasileiro. Após o aumento de tarifas impostas por Trump sobre produtos norte-americanos, os chineses redirecionaram grande parte de sua demanda para fornecedores alternativos, colocando o Brasil em posição de destaque. Como maior exportador mundial de soja, algodão, carne bovina e frango, o país aumentou sua participação no mercado chinês, potencialmente substituindo os agricultores dos EUA.

Entre 2018 e 2023, o volume exportado de soja para a China cresceu 35%, alavancando também as exportações de milho, carne bovina e frango. A valorização das commodities agrícolas impulsionou o PIB do setor, que bateu recorde em 2023, segundo dados do IBGE. No entanto, o fenômeno trouxe efeitos colaterais: com a maior parte da produção voltada à exportação, os preços dos alimentos subiram no mercado interno, pressionando o índice de inflação.

A elevação dos preços das commodities agrícolas, especialmente da soja, já é uma realidade, e mudanças adicionais nas dinâmicas do comércio global podem intensificar essa tendência. O aumento dos custos dos alimentos representa um desafio político para a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em meio a uma crescente desaprovação popular. 

Indústria brasileira enfrenta barreiras

Por outro lado, o setor industrial foi diretamente impactado pelas novas tarifas impostas por Trump. A partir desta quarta-feira (12), passam a valer as taxas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados, o que atinge em cheio as exportações brasileiras — o país é atualmente o segundo maior fornecedor de aço para o mercado americano.

19/06/2015REUTERS/Paulo Whitaker

Dados do Departamento de Comércio dos EUA apontam que, apenas em 2024, foram exportadas 4,1 milhões de toneladas de aço brasileiro para os Estados Unidos. Com a nova barreira tarifária, especialistas alertam para uma possível retração da indústria siderúrgica nacional, diante da queda nas encomendas e da perda de competitividade no mercado externo.

A pressão também vem de dentro dos próprios Estados Unidos: empresários e dirigentes do Federal Reserve vêm pedindo moderação ao presidente Trump, temendo os efeitos colaterais da guerra comercial sobre a inflação e sobre a valorização excessiva do dólar frente às moedas de países emergentes, como o real.

Câmbio, juros e desafios ao Banco Central

A instabilidade gerada pela política externa norte-americana também trouxe reflexos para a política monetária brasileira. A aversão ao risco global provocou fuga de capitais, desvalorizando o real e encarecendo produtos importados — o que reforçou o avanço da inflação.

Em resposta, o Banco Central se viu forçado a adotar uma postura mais conservadora na política de juros. Analistas do mercado financeiro alertam que, com o retorno do trumpismo, o Brasil pode enfrentar novos desafios na condução da política monetária, especialmente se houver uma nova onda protecionista nos EUA ou mudanças na dinâmica do comércio global.

Diplomacia econômica e o reposicionamento do Brasil

Diante do novo cenário geopolítico, o governo brasileiro tem buscado diversificar suas relações comerciais. Parcerias com blocos como Brics e União Europeia vêm sendo fortalecidas como forma de reduzir a dependência em relação ao mercado estadunidense.

Ainda assim, especialistas alertam: o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade do país de avançar em sua agenda de reformas estruturais, modernizar seu parque industrial e garantir estabilidade política e fiscal.

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