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Edição Jornalística – PUC Minas

Economia

Custo da cesta básica sobe em 13 capitais e alimentos essenciais encarecem

A alta nos preços dos alimentos dispostos nas prateleiras dos supermercados desde janeiro deste ano afeta o bolso dos brasileiros

Ana Brisa Reis, Caio Reis, João Hauck e Katia Torres

O início de 2025 trouxe um aumento expressivo no custo da cesta básica em diversas capitais do Brasil, refletindo a alta nos preços dos alimentos essenciais. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o valor da cesta básica subiu em 13 das 17 capitais pesquisadas em janeiro.

A cidade de São Paulo registrou o maior custo, atingindo R$ 851,82, seguida por Florianópolis (R$ 808,75) e Rio de Janeiro (R$ 802,88). Esse aumento tem impacto direto na vida dos brasileiros, principalmente para aqueles que ganham até um salário mínimo, que precisam destinar uma parte significativa de sua renda para a alimentação.

Darci da Consolação Matias é professora da rede pública aposentada e dona de casa. Moradora de Contagem, Região Metropolitana de BH, vai ao supermercado uma vez por mês  e no sacolão, uma vez por semana. Ela conta que sentiu no bolso o aumento no preço dos alimentos: “Principalmente os preços do arroz, café, azeite, carne, sabão em pó,  tomate e alho aumentaram bastante. Para dar conta, tenho de reduzir outros gastos para encaixar os aumentos do supermercado, açougue e sacolão”, relata.

A alta nos preços dos alimentos tem gerado preocupações tanto para os consumidores quanto para os setores produtivos. O encarecimento da comida não apenas reduz o poder de compra das famílias, mas também pode desencadear impactos econômicos mais amplos, como a elevação da inflação e dificuldades na manutenção do consumo interno.

Os produtos que mais subiram

Entre os itens que registraram maior aumento está o café em pó, um dos produtos mais consumidos pelos brasileiros. O preço da bebida subiu em todas as cidades analisadas, com elevações que chegaram a 23% em Goiânia. Nos últimos 12 meses, o café sofreu reajustes expressivos, com altas de 83,20% em Belo Horizonte e 83,00% em Aracaju.

Outro item que pesou no bolso do consumidor foi o tomate, que teve aumento em 15 das 17 capitais, chegando a subir 50,47% em Salvador. A oscilação no preço do tomate se deve principalmente a fatores climáticos, como períodos prolongados de calor e chuvas irregulares, que afetam a produção e reduzem a oferta do produto.

O pão francês, essencial na alimentação diária dos brasileiros, também apresentou elevação de preços em 14 capitais. Esse aumento está diretamente ligado ao custo do trigo, matéria-prima essencial para a produção do pão e que depende da importação. Como a moeda americana segue valorizada, o preço do trigo importado também se mantém elevado, pressionando os custos da panificação.

O óleo de soja e o leite longa vida também sofreram reajustes, sendo que o preço do leite subiu em 16 das 17 capitais, impactado pelo aumento no custo da ração e pela baixa oferta em algumas regiões produtoras.

Fatores que explicam os aumentos

Feliciano Abreu, Sócio-Fundador e atual Gestor do site Mercado Mineiro, conta aspectos que influenciaram no encarecimento dos alimentos. Ele destaca o período de seca no ano passado e as chuvas desastrosas no Rio Grande do Sul, que interferem na questão da produção do sudeste. Somado a isso, ele diz que estamos em uma crise mundial de alimentos.

A pecuária e o agronegócio também são fatores. Mas, na opinião de Abreu, o principal é o dólar: “Quando a nossa moeda é desvalorizada e exportamos os produtos, se o mercado externo paga em dólar mais caro e há uma tendência natural do produtor de qualquer coisa, de qualquer item que possa ser exportado, de mandar para fora do Brasil que ganha em dólar ou em euro, do que obviamente você é manter no mercado interno com a moeda desvalorizada. Fora isso, vários itens são commodities”, afirma.

Esses alimentos são cotados com preços mundiais como açúcar, café e a carne. São itens de primeira necessidade do trabalhador ou de qualquer cidadão. “E isso atinge em cheio a população de baixa renda”, explica o gestor.

A produção de ovos, por exemplo, foi afetada pelo forte calor, que reduziu a produtividade das galinhas. Além disso, o preço do milho, um dos principais componentes da alimentação das aves, registrou alta, tornando a criação mais cara e impactando diretamente o preço final do produto. Segundo dados do setor, o preço dos ovos subiu 61% nos últimos 22 meses.

Outro item que sofreu forte elevação foi o azeite de oliva, afetado pela seca extrema nas principais regiões produtoras da Espanha, Turquia e Itália. A redução da oferta global fez com que os preços subissem de maneira significativa, tornando o produto mais caro para o consumidor brasileiro.

O cacau, matéria-prima essencial para a produção de chocolates e achocolatados, também registrou aumento devido a problemas climáticos no Nordeste do Brasil e à crise agrícola em países africanos como Costa do Marfim e Gana, que respondem por mais da metade da produção mundial.

O papel da CONAB na regulação de preços

Diante desse cenário de alta nos preços dos alimentos, a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) tem trabalhado para monitorar os estoques de produtos essenciais e realizar leilões para regular a oferta no mercado interno.

A CONAB tem como uma de suas funções principais atuar na regulação de preços, evitando a escassez de produtos e minimizando os impactos da inflação alimentar. A parceria entre a instituição e o DIEESE tem sido fundamental para acompanhar a evolução dos custos da cesta básica e fornecer dados essenciais para a formulação de políticas públicas.

Perspectivas de queda nos preços

Gelton Pinto, economista com experiência em gestão e implementação de políticas públicas, concepção e formatação de redes de trabalho colaborativas, analisa uma possível queda nos preços: “Caso os governadores acompanhem a isenção de tributos, pode haver uma equalização mais adequada da demanda via exportações. Ressaltando que isso é complementar à produção interna ou à produção exportada.  Somado a isso, há previsão de acordo com as informações do setor agrícola brasileiro, de um crescimento importante da produção ajudando a equalizar os preços”, diz.

O economista conta que Minas Gerais, por exemplo, recebeu no ano passado mais de 100 bilhões em investimentos no financiamento da produção e isso interfere positivamente na produção, exportação e atendimento do mercado interno.

Feliciano Abreu não está otimista em relação à diminuição dos preços dos alimentos: “Estamos no meio de uma crise muito grande, muito prolongada em vários setores da economia, tá todo mundo insatisfeito”, admite. totalmente aberto para o Brasil. 

Ele ressalta a questão do mercado externo. O consumidor local tem que concorrer com aquele que ganha em dólar. “Aí fica realmente, a gente fica numa situação muito desprivilegiada”, fala.

“Normalmente, há uma ampliação da demanda e consequentemente da inflação. O mercado nem sempre tem velocidade suficiente para atender o crescimento rápido das necessidades da população. Dentro dessas externalidades previstas, o aumento da taxa de juros é completamente ineficaz e amplia os gastos públicos de forma incorreta,” Gelton Pinto

Impacto no orçamento familiar

Com a cesta básica mais cara, o trabalhador que recebe um salário mínimo precisou comprometer 50,90% de sua renda para garantir a compra dos itens essenciais em janeiro de 2025.

Apesar do aumento de 7,5% no salário, a pressão inflacionária sobre os alimentos têm reduzido o poder de compra das famílias, forçando muitos consumidores a buscar alternativas para economizar.

Ainda segundo a pesquisa do DIEESE, para garantir as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas, o salário mínimo ideal em janeiro de 2025 deveria ser de R$ 7.156,15. O ideal equivale a 4,71 vezes o valor do mínimo atual, de R$ 1.518,00. 

Quando perguntado sobre a inflação e políticas econômicas recentes do Brasi, Gelton Pinto falou sobre a  política de recomposição salarial e ampliação da renda: “Normalmente, há uma ampliação da demanda e consequentemente da inflação. O mercado nem sempre tem velocidade suficiente para atender o crescimento rápido das necessidades da população. Dentro dessas externalidades previstas, o aumento da taxa de juros é completamente ineficaz e amplia os gastos públicos de forma incorreta”, explica.

A disparada nos preços dos alimentos, especialmente os de origem proteica, tem afetado não apenas as famílias brasileiras, mas também um nicho específico da população: os atletas amadores. Para quem depende de uma alimentação equilibrada para manter o desempenho e a boa forma, a alta nos custos representa um desafio extra.

Davi Figueiredo, 21, compartilha sua experiência e relata as dificuldades em encontrar alternativas acessíveis que não comprometam sua dieta. No vídeo a seguir, ele detalha as estratégias que tem adotado para driblar os preços elevados e manter a nutrição em dia.

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