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Edição Jornalística – PUC Minas

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Como foi o golpe de criptomoedas aplicado por Milei na Argentina?

Presidente da Argentina Javier Milei se atrapalha em suposta aposta no mercado de criptomoeda

Amanda Lopes, Leonardo de Deus, Mateus Monteiro, Rinaldo Robson e Thiago Bueno

No dia 14 de fevereiro, o presidente da Argentina, Javier Milei, se envolveu em uma polêmica ao apoiar publicamente o lançamento da criptomoeda $LIBRA, em uma postagem no X (antigo Twitter). Essa postagem rapidamente causou um aumento exponencial na valorização da moeda. Contudo, o entusiasmo foi efêmero, já que a moeda despencou após um grande saque de investidores, gerando perdas de bilhões de dólares e acusações de fraude. O episódio levanta questões sobre a responsabilidade de Milei enquanto presidente, que, em resposta, minimizou a situação, classificando sua atitude como “expressão de opinião”.

Fonte: CBN (Perfil Javier Milei – Reprodução X)

“A Argentina liberal está crescendo!!! Este projeto privado será dedicado a incentivar o crescimento da economia argentina, financiando pequenos negócios e empreendimentos argentinos. O mundo quer investir na Argentina. $LIBRA”, publicou o economista libertário, que sempre foi um entusiasta da “tokenização” da economia.
Após esse endosso, a capitalização de mercado da nova criptomoeda subiu para mais de US$4 bilhões, impulsionada por cerca de 40 mil compradores, segundo especialistas atraídos pela imagem de apoio presidencial e pela expectativa de ganhos rápidos em um mercado de criptomoedas altamente volátil. No entanto, em poucas horas o valor da $LIBRA despencou, após um número significativo de carteiras digitais retirar quase US$90 milhões do mercado, causando essa queda abrupta. O efeito foi imediato: o entusiasmo deu lugar ao pânico, e muitos investidores viram seus investimentos desvalorizar quase que completamente. 

Depois da meia-noite na Argentina, Milei deletou sua postagem original e publicou  uma nova mensagem na mesma rede social na qual se distanciava do projeto: “Há algumas horas publiquei um tweet, como tantas outras inúmeras vezes, apoiando um suposto empreendimento privado com o qual obviamente não tenho ligação. Não conhecia os detalhes do projeto e após me inteirar decidi não continuar divulgando (por isso apaguei o tweet)”. Questionado sobre sua responsabilidade com as pessoas que se sentiram enganadas, Milei respondeu que não se tratava de uma farsa e que era apenas “uma opinião”.

Fonte: DW – Made for Minds (Perfil Javier Milei – Reprodução X)

Essa declaração gerou mais indignação entre críticos, que questionaram o comportamento do presidente, principalmente após a enorme valorização inicial que parecia associada ao seu apoio. Em entrevistas subsequentes, Milei argumentou que, para ele, não houve nenhuma falcatrua no caso, pois se tratava de uma simples “opinião” sobre um empreendimento privado. Segundo o presidente argentino, os investidores que entraram na $LIBRA estavam cientes dos riscos e o episódio não passava de uma operação de mercado legítima, onde os lucros nunca são garantidos.

Segundo o jornalista do El País, Ernesto Tenembaum, o negócio já estava bem montado, pois neste tipo de negócio o lucro nunca é garantido. “Milei fez parte de uma associação criminosa que organizou uma fraude com a criptomoeda $LIBRA, que afetou simultaneamente mais de 40 mil pessoas, com perdas superiores a 4 bilhões de dólares (cerca de R$ 23 bilhões)”, afirmou Tenembaum em um comunicado o Observatório de Direito da Cidade, cujos advogados lideram uma das ações.

Entenda o que é rug pull

O termo “rug pull” pode ser traduzido como “puxada de tapete” e descreve um golpe no qual os criadores de uma criptomoeda ou projeto digital incentivam investidores a comprarem o ativo, prometendo altos retornos e benefícios futuros. Após atrair um grande volume de compradores e inflar o valor do token, os desenvolvedores vendem rapidamente suas próprias participações e abandonam o projeto, resultando em uma queda abrupta no preço. Com isso, os investidores que ainda possuem o ativo sofrem grandes prejuízos, enquanto os fraudadores lucram com a alta artificial.

Esse tipo de fraude se tornou comum no mercado cripto, especialmente entre projetos sem regulamentação ou transparência. Em muitos casos, os tokens envolvidos no golpe não possuem utilidade real, servindo apenas como um mecanismo para atrair e enganar investidores. O economista Daniel Loureiro, gerente na Área de Mercado de Capitais do BNDES, comentou sobre o mercado das criptos:

“Esse não é o primeiro caso de fraude envolvendo criptomoedas e provavelmente não será o último. O endosso do presidente pelo Milei acabou potencializando a fraude e a divulgação dela pelo mundo. No curto prazo, tudo isso tem um impacto muito negativo sobre o mercado de cripto ativos, afastando investidores. No médio/longo prazo, ainda pode ter um impacto positivo, pois expôs algumas fragilidades desse mercado, o que pode levar a uma maior regulamentação no futuro”, explicou.

Além disso, o economista também falou sobre as principais diferenças entre o mercado de ações, tradicional, e o de criptomoedas: “O mercado de ações ocorre em uma bolsa de valores, possui um órgão de controle e supervisão, sendo fortemente regulamentado, com regras mais objetivas sobre informações privilegiadas, disponibilização de informações públicas e proibições de insider trading. O mercado de cripto, apesar de alguns avanços recentes, ainda ocorre de uma forma muito desregulamentada, carecendo de regras claras.

Milei vai passar ileso

O próprio Milei, em sua resposta, dá indícios do porquê ele deve passar ileso, e principal, motivo é pela falta de regulamentação do mercado das criptomoedas. Em entrevista ao canal local Todo Noticias, Milei se defendeu das críticas quanto à confiabilidade da criptomoeda. “Se você vai ao cassino e perde dinheiro, qual é a reclamação se você sabe que o cassino tem essas características?” “Aqueles que participaram o fizeram voluntariamente. É um problema entre particulares, porque o Estado não tem nenhum papel aqui”, declarou. Ainda se justificando, o presidente argentino apontou que aqueles que investem nesse tipo de investimento “são traders de volatilidade”, e se distanciou do caso: “Aqueles que participaram o fizeram voluntariamente. É um problema entre particulares, porque o Estado não tem nenhum papel aqui (…) Eu não promovi, eu espalhei. Não é a mesma coisa”.

 “O Estado perdeu dinheiro? Nada. Os argentinos perderam dinheiro? Tenho sérias dúvidas, não acredito que sejam mais de cinco argentinos”

O governo de Javier Milei na Argentina é marcado, até o momento, por medidas ultraliberais que favorecem o mercado financeiro e o capital estrangeiro. Algumas delas passando pelo congresso por meio de coligações com os partidos, porém outras em forma de decreto, o que já despertou revolta na oposição peronista pelo perfil autoritário que o presidente já mostrava na campanha. 

Milei, como um bom neoliberal, deseja desaparelhar a maior parte da máquina estatal e deixar com que o mercado se autorregule. Um dos movimentos do presidente nesse sentido foi o congelamento de salários dos funcionários públicos, gerando o tão perseguido superávit fiscal da economia argentina. Porém, ao invés de trazer benefícios à maior parte da população, o superávit atuou como resultado prático para a entrada de capital estrangeiro. Com isso, as folhas de economia dos maiores jornais do mundo, como o “The Economist” vem tratando o governo como revolucionário, mesmo com índices decadentes de qualidade de vida da população. 

Um exemplo prático de que resultados bons podem esconder uma realidade péssima é a inflação no país. Desde que Milei assumiu, a inflação (um dos problemas crônicos do país) sofreu uma queda vertiginosa e, em janeiro de 2025, se estabilizou em 2,2%, o menor índice em cinco anos, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina. Essa queda, no entanto, é explicada pela queda na demanda da população por alimentos, já que o poder de compra de grande parte das pessoas e a circulação de dinheiro caiu. 

Em uma análise crua da realidade na Argentina: não há inflação se todo mundo está passando fome. Em setembro de 2024, mais da metade da população argentina estava abaixo da linha da pobreza segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) e a média de consumo de carne bovina foi a menor desde 1920. Se índices tão absurdos como esse não motivam a queda desse presidente, não será uma fraude financeira que vai fazê-la. Os interesses das potências mundiais na Argentina vão segurar Milei no cargo o quanto for necessário, principalmente os Estados Unidos, que aguardam ansiosamente a dolarização da economia prometida pelo presidente argentino. 

O Governo Milei

Com aprovação ainda em alta, Javier Milei não se preocupa com a instabilidade de seu governo. Entusiasmado com a aliança com o presidente Donald Trump, o ultralibertario terá como teste as eleições legislativas do país marcadas para outubro. Mas o projeto frustrado da criptomoeda trouxe problemas para o presidente, a ponto da oposição da Argentina cobrar seu impeachment.  

Por conta da queda da inflação, o governo argentino registrou uma considerável recessão e, com esse resultado, a queda de produtividade chegou ao patamar de provocar instabilidade econômica no país. O presidente Milei vem apostando na contratação de gasto público, no chamado choque clássico, tendo como consequência a desaceleração econômica. 

Ademais, a decisão do presidente de fazer um acordo com o FMI desagradou tanto opositores como alas da centro-direita e direita na Argentina. A coalizão “Unidos Pela Pátria” protocolou uma moção denunciando Milei por supostamente ter infringido os artigos 75 e 76 da constituição nacional. O texto diz que qualquer dívida com organismos internacionais deve ser aprovada pelo Congresso, após tramitar pela Câmara e Senado. Além da ala peronista, parlamentares ligados à direita e aos partidos aliados do governo participaram da iniciativa.

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